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Diário de uma dESarrumada

A espalhar o #cagandoeandando por essa internet fora desde 2015.

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17
Out17

Afinal...

... os meus pais estão bem. As comunicações foram cortadas em todo o concelho e nos concelhos vizinhos. De vez em quando não havia luz, o fumo entra quando se abre a janela, há pessoas a usar máscara e crianças a desenvolver problemas respiratórios. O cenário é negro, há cinzas por todo o lado, os telhados estão pretos e os muros estão cheios de fuligem. Foi assim que a minha mãe me descreveu o que estão a viver.

Algumas casas do concelho arderam, uns quantos negócios nos concelhos vizinhos foram ao ar. E assim se perde tudo pelo qual se lutou uma vida, pessoas resilientes que apostaram no interior do país encontram-se hoje sem nada. O meu pai não teve um único cliente ontem no negócio dele, e hoje ia pelo mesmo caminho. O meu avô materno perdeu um pinhal inteiro e o meu avô paterno perdeu a vinha. E assim se perdem negócios e sonhos. Os incêndios matam, os incêndios levam com eles a esperança em dias melhores, os incêndios estão a dar cabo das pequenas vilas e aldeias do país. Fala-se em desertificação, numa Serra da Estrela cada vez mais vazia, mas ninguém ajuda quem lá fica. Depois as pessoas vão embora para as cidades ou estrangeiro. Já ninguém consegue ficar na aldeia que os viu crescer. Por outro lado, os da cidade gritam aos sete ventos que a "sua" cidade não dá para todos, e têm razão, não vamos conseguir caber todos nas cidades, um dia a bolha rebenta. O meu pai tem quase 50 anos e já fala em voltar a sair do país ou mudar-se para uma cidade. Ninguém aguenta viver no campo com condições assim. Há zonas do país abandonadas, sem escolas com a centralização em cidades, sem hospitais com a centralização em cidades, com postos de bombeiros desprovidos de meios, obrigados a esperar que os "maiores" da cidade cheguem.

Meus caros, o que vou dizer é muito triste, eu não sei onde quero morar no futuro, se em Portugal ou no estrangeiro, visto que mudo de ideias como quem muda de cuecas, mas sei muito bem onde não quero voltar a morar nunca, numa aldeia qualquer perdida no meio de Portugal. Com muita pena minha, se algum dia tiver filhos, eles nunca vão respirar um ar tão puro como o que eu respirei durante a minha infância na Serra.

16
Out17

Acabem com os incêndios, já mete nojo.

Quando toda a tua família ficou incontactável por causa dos incêndios e começas feita doida à procura de quem te consiga dar informações sobre eles... mas todos os teus amigos são emigrantes que também não estão a conseguir falar com a família deles... já ando nisto há horas. Já soube por outras pessoas que toda a região ficou sem electricidade. Está bonito está... espera-me uma noite longa...

18
Jun17

Inferno.

Não consigo descrever o que tenho sentido ao ver as notícias sobre a tragédia em Pedrógão Grande. Não há nada, nem uma única palavra que possa aliviar a dor daquelas famílias... A dor coletiva dos portugueses ao ver o seu país (amado, e ultimamente tão idolatrado!) em chamas. Eu não quero ver as imagens, não mandem para lá drones, não é isso que as famílias querem, não é isso que os portugueses querem. Não há imagens que apaguem a dor, muito pelo contrário! Eu sinto revolta ao ver as notícias. Sinto revolta ao ver os jornais lutar para ter a melhor foto. Apetece-me gritar de raiva! Dane-se quem pensa que os incêndios trazem lucro! Dane-se quem pensa que plantar este inferno traz algo de bom para o país! Danem-se todos esses e mais alguns que há anos plantam este inferno. Porque a culpa é deles e de ninguém. A natureza, coitada, mesmo que tentasse não conseguiria fazer este espectáculo repugnante todos os anos. Nós só queremos paz, brisa fresca e um verão sem incêndios. Será pedir muito??? O inferno não devia existir num país como Portugal. Portugal e os portugueses não merecem isto.

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