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Diário de uma dESarrumada

A espalhar o #cagandoeandando por essa internet fora desde 2015.

Diário de uma dESarrumada

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11
Dez19

França, não enviaste o formulário X!

França é o país da burocracia. Isto é papéis, formulários, pedidos de formulários e impressos para preencher por todo o lado. Quando se está a trabalhar em estatuto liberal... Então é o pesadelo... Comecei há 7 meses e o estúdio onde moro já não chega para guardar a quantidade astronómica de dossiers que tenho...

 

Este vídeo bastante antigo foi-me mostrado por uma amiga. E retrata bem, de forma satirizada, mas real, a confusão que é tratar de assuntos burocráticos por aqui. Pode parecer exagero, mas já me disseram muitas das frases que vão ouvir neste vídeo. E algumas delas são tão ridículas, que quando questionamos a pessoa, nem ela sabe explicar o que acabou de nos dizer...

 

O primeiro vídeo está em francês! Mas não vos apoquentais... Encontrei o mesmo em inglês! 😂

 

 

 

Beijo na bunda! 💋

 

25
Out19

2. Estúdio.

No estúdio onde moro tenho exactamente 7 móveis (dos quais constam 2 cadeiras de plástico do IKEA), 4 prateleiras num dos muros, que estão cheias de livros, um lavatório com um armário encastrado em baixo, que decidi não considerar como móvel por fazer parte do muro, onde cabem os meus produtos todos de beleza e higiene pessoal. Num dos cantos, uma cabine de duche AKA poliban.

 

Dentro da parte inclinada, está o que parece uma mini despensa separada com portas de correr, mas onde nem consigo entrar de pé... Nesse espaço tenho três caixas de arrumação de plástico, daquelas para os brinquedos das crianças, onde cabe, literalmente, a minha roupa toda. E mais 3 mini prateleiras no muro interio, onde consegui colocar algumas toalhas, as minhas meias e restante roupa interior, em caixinhas. Tenho outra caixa com produtos de limpeza que trouxe da casa antiga... Demasiados para aqui. Neste sítio a limpeza faz-se em 15 minutos. Sim, já contei. 

 

Tenho um mini-espaço para cozinhar, com um mini lava-louça, daqueles que fica cheio com um prato e um copo. Ao lado, duas placas para cozinhar. Por acaso aquilo aquece rápido e até vou conseguindo cozinhar qualquer coisa de jeito ali. É o que me safa. Mas isso começou há cerca de duas semanas, os primeiros 4 meses aqui, alimentava-me de pratos preparados, e encomendava muito em aplicações. Mas isso não é vida... Começou a custar-me ver tanto dinheirinho a voar assim... Já não bastava o outro que gasto com o chocolate. 

 

Num cantinho do chão, vou metendo os legumes que compro e que não cabem no frigorífico, que como podes imaginar, é daqueles tipo frigorífico de hotel, com 1 mini congelador em que a porta nem fecha bem e acaba por ficar geio de gelo em 2 tempos, depois já não cabe lá mais nada, e tenho que descongelar. Um ciclo sem fim... Uma vez por mês lá estou eu, de rabo para o ar, a secar a água que caiu para o chão durante o descongelamento. Esse frigorífico tem, mais duas prateleiras de fresco, uma gaveta em baixo, supostamente para legumes, mas onde só cabem 2 courgettes e 3 tomates de cada vez, e na porta, uma prateleira para ovos, mais precisamente, seis. 

 

O estúdio tem uma porta, e única, a da entrada. E de saída. Uma janela estilo Velux na parte inclinada do tecto, daquelas com vista para os telhados de Paris, que fica mesmo por cima do sofá-cama, oferecendo-me, em dias de chuva, o melhor ASMR para dormir que podia ter pedido.

 

A outra janela, proporciona-me uma vista para o "local" do lixo do prédio e é onde consigo avistar, ao longe, a torre de Montparnasse, com a sua luzinha azul sempre no pisca-pisca.

 

Estou aqui deitada no sofá-cama a escrever-te isto. E à espera que os dois aquecimentos eléctricos minúsculos aqueçam a divisão. Sim, moro numa única divisão. Agora, a minha vida toda cabe em 12m2. E ainda falta destralhar muita coisa. Quem diria. 

 

A casa de banho? Essa fica no corredor. Num cubículo minúsculo, onde só vou para fazer xixi e cocó. Que partilho com mais 4 estúdios como o meu. Creio que os outros sejam estudantes, porque nunca estão cá ao fim de semana. Aliás, nunca estão cá, ponto. Tenho o sexto andar, e meio!, só para mim. Nunca pensei viver num meio andar... 50% de um andar, no topo de um prédio, em Paris... Well, podia ser pior. Ao menos tem elevador. 

 

Já te disse que vendi o meu carro? A minha caixinha de fósforos que tanto me levou para sítios? Vou só ali dormir um bocadinho, amanhã já te conto mais sobre isto. 

 

06
Out19

Na lavandaria.

Domingo é dia de lavar a roupa na lavandaria. E estava aqui a ver se a lavagem estava muito avançada quando chegou uma rapariga asiática, talvez chinesa, com uns envelopes fechados na mão.

 

Ela meteu a roupa dela para lavar e começa a abrir os envelopes descontraidamente...

 

Eu estava na minha vida quando, de repente, ouço a rapariga aos gritos ao telemóvel, numa língua desconhecida para mim, enquanto gesticula com os papéis na mão. Furiosa. 

 

Começa a gritar cada vez mais, e entretanto a chorar com os nervos e a bater com os papéis em cima da mesa. Não sei o que estava a dizer, mas pelas expressões faciais e linguagem corporal devia ser algo que se assemelhe a umas boas caralhadas.

 

Fui correr (costumo dar uma corridita enquanto a roupa lava) e ao passar por trás da rapariga, de forma a sair da lavandaria, reparei que a carta que ela estava a abanar no ar, e talvez, com muita vontade de queimar, tinha um símbolo azul que tem vindo a tornar-se muito familiar para mim nos últimos 4 meses. 

 

Era o símbolo de uma das entidades que cobra os impostos dos trabalhadores liberais aqui em França.

 

Percebi tudo. E naquele momento, inundada de uma empatia sem par, fiquei com vontade de a abraçar, talvez deitarmo-nos no chão em posição fetal, e largar uma lágrimazita de tristeza com ela.

 

Para o ano já é a minha vez. 

 

Foda-se. 

 

Somos lixados, enrabados, sugados até ao tutano. Mas ao menos choramos juntos.

 

Boas eleições malta.

 

Beijo na bunda! 💋 

27
Set18

Os hits da rádio aqui na France #7

Este tipo de músicas passam tanto, mas tanto, na rádio por aqui. Este estilo em particular não aprecio, reformulo, a música em si até pode escapar numa noite de borracheira, mas o vídeo??? Quando estou no quarto de algum paciente e isto começa a passar na televisão fico meio que hipnotizada com estas moças fantasiadas com ostentação e luxo. A dizer que um homem corre atrás dela mas ela não está interessada porque só pensa em fazer dinheiro. Sim, por um lado apetece-me dizer-lhe "you go girl!" por outro tenho a dizer que escusava de ignorar o moço quando ele aparece com as flores, primeiro aceitava as flores e depois ia-se embora como fez 

Quando vejo isto só me apetece dizer ao meu paciente "olhe vou só ali um bocadinho já volto", fechar-me na casa de banho e suicidar-me com a mangueira do chuveiro.


 

 

22
Ago18

Notificações cerebrais: o regresso ao trabalho.

Estão a ver quando uma pessoa passa um dia inteiro sem ligar os dados do telemóvel e depois quando chega a casa, ao conectar-se ao wifi, chega aquela enxurrada de notificações provenientes de todas as aplicações e o telemóvel fica ali a emitir os mais variados sons durante uns 10 minutos? Estão a ver aquela sensação de pânico de não saber por onde começar a ver tudo o que se passou durante a nossa "ausência" no mundo virtual da internet?

 

Pois. Eu sinto-me assim depois das férias. No primeiro dia de trabalho. As notificações chegam em catadupa ao meu cérebro e eu ando ali feita barata tonta a tentar apreender toda a informação. Às vezes olho para o paciente que vem ter sessão comigo e fico a pensar "quem é este? qual é a patologia dele e o que é suposto eu fazer com ele?"  

 

Resumindo, demorei um mês a sentir que tinha voltado a 100%. No entanto, escusado será dizer que com as substituições de férias dos colegas e o ritmo frenético de trabalho durante o mês de Agosto (sim, porque a doença não tira férias no verão!), já estou a precisar de outras férias. Quem mais nesta situação?

 

Beijo na bunda! 

22
Jul18

E hoje o jantar foi...

Olá malta desarrumada. Aqui estou eu a contar novidades alimentares. Hoje o jantar foi num restaurante português aqui em França para festejar o aniversário de uma colega portuguesa.

 

Leitão! Olhem para esta delícia! Sobremesa: mousse de chocolate e arroz doce. Eu e a H costumamos dividir as sobremesas, assim provamos sempre duas coisas diferentes! Mas não houve cá foto para ninguém... gulosas!

 

IMG_20180721_201827.jpg

 

18
Jul18

A minha vida tem sido isto!

 

Estudar francês! E só Deus sabe como eu detestava esta língua na escola... sempre convencidíssima de que, a emigrar, iria escolher o Reino Unido! (estive quase a tomar essa decisão by the way!)

Quis o destino que viesse parar a França e não me arrependo nada. Engraçado que... tenho sempre aquele receio de me arrepender das minhas decisões mas isso acaba por (quase) nunca acontecer!

Amanhã é o exame... e depois já posso relaxar! Desejem-me muita merda!

 

Bisous na bunda! 

 

 

21
Mai18

Como vejo hoje a emigração.

Conheço vários casais de emigrantes que estão na Suíça. E, apesar de não falar regularmente com eles, sigo o que vão fazendo por lá nas redes sociais. Admito que é um país que me desperta alguma curiosidade e que gostava de conhecer. Então lá vou eu toda contente ver o que postam, na esperança de que mostrem coisas giras desse país.

 

Efectivamente eles vão passeando e fazendo as suas visitas como qualquer pessoa.


Mas comem onde? Restaurantes portugueses.
Comem o quê? Bacalhau e leitão.
Saem com quem? Amigos portugueses. 
Vão a que tipo de bares? Bares portugueses. 
Bebem o quê nesses bares? Super Bock ou Licor Beirão. 
A que tipo de festas vão? Vão àqueles encontros de portugueses em que há Toy, Tony Carreira e fadistas.
Quando vão a algum lado diferente tipo bowling, kart, etc. São sítios em que a gestão é feita por portugueses.

 

Fico sempre naquela dúvida se na Suíça não há actividades, bares, restaurantes, geridas por suíços e/ou outras nacionalidades, ou se é mesmo a malta portuguesa que prefere andar em manada e não se quer misturar. Ou se são só estas pessoas que sigo que são assim, e que há outros portugueses por lá que se misturam mais. Quero acreditar que sim.

 

Pessoalmente não vejo a emigração dessa forma. Se decidi mudar de país, não é para viver como se ainda estivesse em Portugal. Vejo isto como uma oportunidade de expandir horizontes, conhecer outras culturas e formas de estar na vida. Aliás, até houve bastantes hábitos que trouxe de Portugal que decidi abandonar, por já não me servirem, e que não tenciono voltar a ter, mesmo que um dia regresse para Portugal. 

 

Para mim ir embora é isto, é crescer. É alargar o coração para outras tradições, comidas, bebidas, lugares, poderem entrar e ganhar casa. É criar um cantinho para todas as coisas que gosto nos dois países. É sentir-me um bocadinho dos dois países. É ter saudades de França quando estou em Portugal e de Portugal quando estou em França.

 

É saber que isto vai ser um "problema" no sentido em que vou adiar, adiar e adiar a decisão de voltar. Porque também me sinto bem aqui. E a minha família dizer que já não volto. E eu não sei se isso é verdade ou não, se tivesse um emprego que goste em Portugal, com alguma dignidade, costumo dizer que voltava já amanhã. Mas será verdade? Será que voltava mesmo? No fundo de mim, sei que nada sei. Só quero sentir-me bem, e neste momento sinto-me bem aqui. E o tal emprego de sonho em Portugal ainda não apareceu. E vou adiando.

3 anos e 6 meses.

 

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