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Diário de uma dESarrumada

Diário de uma dESarrumada

21
Mar20

Ode ao isolamento social. Ou como ficar maluco em 5 dias.

Já não faço uma ode desde 2015, ano prolífero em inspiração, em que não só fiz uma ode ao kebab, como fiz outra ode aos tomates.

 

Vejam lá, que hoje acordei inspirada da minha vida, com aquela luz divina a cair-me nos cornos em modo angelical com direito a música de coro, e decidi escrever umas merdas no meu blog, à boa moda da dESarrumada, que aquela bitch nem sempre cá vem, mas quando vem parte a barraca toda.

 

Vamos lá?

 

Vamos pois.

 

 

Ode ao isolamento social

 

Tudo começou de um dia para o outro

O que era só uma simples gripe, segundo Emmanuel Macron,

Tranformou-se numa guerra sanitária,

E veio acabar com o famoso papel higiénico para limpar o bujon.

 

Já estou aqui que nem posso, de dormir mais de 10h por dia,

O sol esse, a trabalhar que nem um cão, já nem o via,

Mas agora ainda vejo menos, porque o velux do estúdio,

Uma limpeza já merecia.

 

Para sair, é preciso uma autorização,

Antes dava para preencher online e mostrar no telemóvel,

Mas um hacker decidiu que era a altura ideal para roubar informação,

E agora temos que copiar aquela merda toda à mão.

 

Já não escrevia tanto à mão desde a primária.

 

É a oportunidade ideal para ver séries, filmes e pornografia até cair,

O Pornhub aqui em França até já ofereceu uma conta premium gratuita.

Ok, esta quadra não vai rimar,

Mas com tanto porno em HD disponível até a patareca vai ficar aflita.

 

Se sempre quiseram testar os limites sebáceos do vosso cabelo,

esta é oportunidade perfeita.

Ver quanto tempo aguentam sem um banho.

Saber quanto é que crescem os vossos pêlos púbicos,

Podem testar aquele desodorizante zero waste, que tresanda, mas que sempre tiveram medo que os vossos colegas do work conseguissem cheirar.

 

Deixar o buço crescer até ao pescoço,

E apará-lo com o facalhão da cozinha.

Ok não se metam com o facalhão. Isso vai correr mal.

 

Qual cozinha? Não tenho. Estava só a brincar.

Já acumulei tanta tralha no estúdio que tenho que saltar obstáculos para chegar à cama.

Qual cama? Também não tenho.

É um sofá com um colchão mais fino que a pila do cachalote.

 

Não deixou saudades. Mas a experiência de quase morte que tive com ele, é tipo a experiência de morte eminente que o sistema de saúde público francês vai viver, brevemente, num hospital público perto de si. Porque entretanto os privados já deram à sola. Como em Portugal.

 

Mas isso já são outros quinhentos, como dizia a Avó Maria.

 

Pronto, isto no início rimava, já valeu pelo esforço,

Agora vou só dizer umas tretas soltas que me vierem à cabeça.

 

A minha vida tem sido:

Masturbação

Yoga

Meditação

Journalling

Visualização

Afirmações positivas

Ir comprar comida

Descer as escadas

Voltar para cima porque me esqueci da autorização

Copiar a autorização

Reparar que me enganei na data do decreto-lei

Recomeçar do zero

Escrever tudo outra vez

Tentar alegar que só tinha uma folha de papel em casa e deixar tudo entregue nas mãos de Deus

Ir às compras

Comer moelas pela terceira vez em dois dias porque é a única merda que sobra no corredor das carnes

Chegar à conclusão que o peixe aqui, para além de ser escasso, é nojento

E caro. Muito caro. Mas ainda não tão caro como o papel higiénico.

Esta gente pensa que o mundo vai acabar se não tiverem o rabo limpo?

Ou foi porque o Pornhub ofereceu um mês de premium grátis?

Não me digam que o papel higiénico é para se limparem depois?

 

Ok, foda-se, esta ode já descambou.

 

Vou só ali dormir a quarta sesta do dia.

 

E rezar para que a minha saúde mental aguente este isolamento em 12 metros quadrados.

 

Ontem bebi alcool sozinha, pela primeira vez na vida.

 

E ainda só vamos no 5º dia.

 

Arre foda-se.

 

Rogai por nós, irmões.

 

Beijo na bunda! 

 

 

30
Out19

3. Carro.

Disse que voltava aqui para te falar do meu carro.

 

Vendi o meu carro. O segundo que tive na vida. O primeiro comprei em Portugal com o meu primeiro salário, e dinheiro que tinha poupado durante 3 anos para fazer Erasmus. Intercâmbio no Reino Unido, para o qual fui seleccionada, somente duas vagas disponíveis! e do qual acabei por desistir, por pressão do meu pai, devido a dificuldades económicas... Estão a ver quando estamos entusiasmados para realizar um sonho, e os nossos pais, dos quais somos financeiramente dependentes, nos dizem a frase-mata-sonhos: "eu não tenho dinheiro para te pagar isso".

 

E vocês, ingénuos, aceitam o que os vossos pais decidiram que era o melhor para vocês... Apesar de saberem que, há bolsa, há formas de trabalhar para a universidade e ganhar uns trocos... Havia tanta forma de me ter safado, tanta solução, tinha tanta certeza de que ia correr bem, e mesmo assim ouvi o meu pai, e desisti. Lembro-me daquela quarta-feira, acordei cedo para ir falar com a professora responsável pela colocação nos Erasmus... 

 

"Professora, vim aqui para desistir da minha vaga e passá-la ao próximo na lista" (eu era a primeira a ter ficado colocada... Com a minha desistência, o terceiro colocado foi no meu lugar...)

 

"Você tem noção da oportunidade que está a deitar fora? Tem noção da quantidade de pessoas que queriam estar no seu lugar?"

 

"Tenho sim, mas por razões familiares não vou conseguir ir". 

 

Este foi um daqueles dias que mudou tudo na minha vida. O sonho de emigrar para o UK foi-se...

 

Saí daquela sala e contornei a minha escola por trás, para evitar o caminho principal e ter de me cruzar com pessoas conhecidas, em apneia fui caminhando entre os departamentos, até chegar à parte de trás da biblioteca, onde dava para ver a ria, e aquela paisagem magnífica que me acompanhou em muitas tardes de estudo... Era mesmo muito cedo, estava um bocado de nevoeiro. E a apneia foi-se. Comecei a chorar. Chorei tanto. Chorei (quase) tudo. Naquele dia senti que um caminho, de entre tantos outros caminhos que podia ter escolhido, tinha desaparecido para todo o sempre.

 

Chorei:

Por não ter nascido com mais posses monetárias,

Por não ter tido coragem de dizer foda-se ao meu pai,

Por ter tido medo de falhar e ouvir um "eu bem te avisei que o dinheiro não ia chegar".

 

Tive medo, muito medo... E com medo de desiludir os meus pais, desiludi-me a mim própria. E desisti...

 

Hoje não sei como teria sido a minha vida se tivesse ido para o Reino Unido e não para França? É engraçado... E ao mesmo tempo não tem piada nenhuma! Como um só segundo de indecisão, pode mudar tudo. O plano era: erasmus e depois procurar trabalho por lá. 

 

Entretanto, com o curso acabado, comprei o meu primeiro carro, com o qual não tinha sonhado, com o dinheiro de outro sonho... porque o trabalho que tinha na altura era relativamente longe de onde morava... Depois com as poupanças que voltei a fazer nesse trabalho, emigrei. Para França. O Reino Unido tinha um sabor tão agridoce que nem voltei a considerar essa hipótese. O primeiro carro lá ficou, com os meus pais, e irmão, são eles que o usam, já não me pertence... Mas quando vou a Portugal e vejo a puta daquele carro, não consigo deixar de pensar "e se tivesse ido?" 

 

Traz-me recordações pesadas. 

 

Chegada a França, numa terrinha com mais vacas do que habitantes, tive que voltar a comprar outro carro após um ano. Um carrinho pequenino, que ficou comigo por 3 anos. Chorei muito naquele carro, mas também ri muito. E as quantidades industriais de chocolate que comi lá dentro... Um carro tem sempre tantas histórias para contar não tem? Até o raio da matrícula tinha as minhas iniciais! 

 

Vendi-o no dia 2 de Setembro deste ano. Foi muito mal negociado e perdi quase tudo que paguei por ele... Só em TGV para o ir vender, foi quase tudo que me pagaram... Carros nunca são um investimento, mas isso eu já sabia. Contudo, fiquei mais leve. Não há gasolina para meter, não há inspecção para fazer, não há mais seguro para pagar. Aqui em Paris, quando quiser partir, é só pegar na troxas que tenho, meter tudo num saco (ou dois!) e bazar. Já não há mais nada para vender.

 

Sobre o carro#1: consegui perdoar o meu pai. E, 7 anos depois, a mim também... Mas só porque aprendi a aceitar que estou onde tenho que estar. É preciso deixar de pensar em quem podia ter sido, e concentrar-me na pessoa que sou e quero ser. 

 

Em termos materiais, não há mais nada que me prenda.

 

Ouve o que te digo, uma pessoa só se arrepende do que não faz... E isto que acabei de te contar é, provavelmente, o meu maior "e se..."

 

Mas a lista de arrependimentos a expurgar ainda é longa. Espero que estejas com paciência para ouvir. Obrigada por estares aí. 

 

 

25
Out19

2. Estúdio.

No estúdio onde moro tenho exactamente 7 móveis (dos quais constam 2 cadeiras de plástico do IKEA), 4 prateleiras num dos muros, que estão cheias de livros, um lavatório com um armário encastrado em baixo, que decidi não considerar como móvel por fazer parte do muro, onde cabem os meus produtos todos de beleza e higiene pessoal. Num dos cantos, uma cabine de duche AKA poliban.

 

Dentro da parte inclinada, está o que parece uma mini despensa separada com portas de correr, mas onde nem consigo entrar de pé... Nesse espaço tenho três caixas de arrumação de plástico, daquelas para os brinquedos das crianças, onde cabe, literalmente, a minha roupa toda. E mais 3 mini prateleiras no muro interio, onde consegui colocar algumas toalhas, as minhas meias e restante roupa interior, em caixinhas. Tenho outra caixa com produtos de limpeza que trouxe da casa antiga... Demasiados para aqui. Neste sítio a limpeza faz-se em 15 minutos. Sim, já contei. 

 

Tenho um mini-espaço para cozinhar, com um mini lava-louça, daqueles que fica cheio com um prato e um copo. Ao lado, duas placas para cozinhar. Por acaso aquilo aquece rápido e até vou conseguindo cozinhar qualquer coisa de jeito ali. É o que me safa. Mas isso começou há cerca de duas semanas, os primeiros 4 meses aqui, alimentava-me de pratos preparados, e encomendava muito em aplicações. Mas isso não é vida... Começou a custar-me ver tanto dinheirinho a voar assim... Já não bastava o outro que gasto com o chocolate. 

 

Num cantinho do chão, vou metendo os legumes que compro e que não cabem no frigorífico, que como podes imaginar, é daqueles tipo frigorífico de hotel, com 1 mini congelador em que a porta nem fecha bem e acaba por ficar geio de gelo em 2 tempos, depois já não cabe lá mais nada, e tenho que descongelar. Um ciclo sem fim... Uma vez por mês lá estou eu, de rabo para o ar, a secar a água que caiu para o chão durante o descongelamento. Esse frigorífico tem, mais duas prateleiras de fresco, uma gaveta em baixo, supostamente para legumes, mas onde só cabem 2 courgettes e 3 tomates de cada vez, e na porta, uma prateleira para ovos, mais precisamente, seis. 

 

O estúdio tem uma porta, e única, a da entrada. E de saída. Uma janela estilo Velux na parte inclinada do tecto, daquelas com vista para os telhados de Paris, que fica mesmo por cima do sofá-cama, oferecendo-me, em dias de chuva, o melhor ASMR para dormir que podia ter pedido.

 

A outra janela, proporciona-me uma vista para o "local" do lixo do prédio e é onde consigo avistar, ao longe, a torre de Montparnasse, com a sua luzinha azul sempre no pisca-pisca.

 

Estou aqui deitada no sofá-cama a escrever-te isto. E à espera que os dois aquecimentos eléctricos minúsculos aqueçam a divisão. Sim, moro numa única divisão. Agora, a minha vida toda cabe em 12m2. E ainda falta destralhar muita coisa. Quem diria. 

 

A casa de banho? Essa fica no corredor. Num cubículo minúsculo, onde só vou para fazer xixi e cocó. Que partilho com mais 4 estúdios como o meu. Creio que os outros sejam estudantes, porque nunca estão cá ao fim de semana. Aliás, nunca estão cá, ponto. Tenho o sexto andar, e meio!, só para mim. Nunca pensei viver num meio andar... 50% de um andar, no topo de um prédio, em Paris... Well, podia ser pior. Ao menos tem elevador. 

 

Já te disse que vendi o meu carro? A minha caixinha de fósforos que tanto me levou para sítios? Vou só ali dormir um bocadinho, amanhã já te conto mais sobre isto. 

 

Bem-vindos ao meu diário, um lugar seguro onde podemos falar sobre tudo. Já comentaram hoje? Bisou, da vossa dESarrumada.

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