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Diário de uma dESarrumada

Diário de uma dESarrumada

29
Abr20

Diário de bordo 29.04.2020

como vos tinha dito, o Titi veio ter aqui comigo durante uns dias. Depois fui eu a casa dele, depois ele voltou aqui para o meu aniversário. Vocês não sabem, mas aqui a vossa dESarrumada já tem 29 anos! 

 

vinte 

e

nove!

 

Quando comecei o blog tinha 23 anos. Já lá vão quase 6 anos de emigração. E de muito crescimento.

 

As coisas com o Titi têm corrido bem. No início tivemos um arrufo por causa de uma ex dele, com quem ele ainda se dá e bebe cafézinhos, chateei-me com ele porque queria que ele deixasse de a ver, ele disse que não o faria porque actualmente ela era uma amiga dele, e eu não podia pedir-lhe isso, nem com ela, nem para deixar de ver quem quer que fosse.  

 

Fiquei amuada 1 dia. Depois decidi que não podia amuar com merdas destas, ou nunca ia construir nenhuma relação de jeito.

 

Aproveitei para usar esta situação para crescer. Fiz os exercícios de "auto-cura" da Psicóloga Nicole LePera que podem ver aqui. São exercícios de escrita chamados "Future Self Journaling", que nos ajudam a desligar certos circuitos automáticos no cérebro e a tornarmo-nos uma nova versão de nós mesmos. 

 

E tenho andado super bem. Tenho consolidado cada vez mais a crença de que ninguém nos pertence, um parceiro de vida é suposto acrescentar algo, eu não o possuo, e ele não me possui a mim, somos pessoas independentes... tal como entramos na vida um do outro também podemos sair, por traição, por ruptura amorosa, por doença, por acidente, ou morte. E por isso é tão importante aproveitar bem o tempo que temos juntos.

 

E também me apercebi de outra coisa relativamente a mim própria - isto foi muito doloroso - às vezes a resposta à pergunta "e se a pessoa mais tóxica da relação fores tu?" é sim. E isto é bem real, e é preciso termos consciência disto, que todos, em algum ponto da vida podemos ter comportamentos tóxicos... eu muitas vezes fico tão cega pelo ego que não me apercebo que tenho, eu mesma, comportamentos tóxicos de ciúmes e controlo excessivo. Consegui parar. Consegui aceitar, e tenho estado tão em paz. Desde aquela discussão que não voltei a abordar o assunto com ele, porque decidi voltar-me para dentro... descobrir mais sobre mim própria... e aproveitar este rapaz que tem sido uma bela descoberta e uma etapa fantástica da minha vida. 

 

Ele tem estado sempre muito presente, temos falado todos os dias, já partilhei com ele alguns dos meus sonhos e ele apoia-me em tudo. Ele contou-me os sonhos dele e eu apoio em tudo. Por isso, sinto que a coisa está bem encaminhada... e o confinamento está quase a acabar, vamos recuperar um bocadinho da vida no exterior... Não posso falar em recuperar o tempo perdido, porque este tempo em casa não foi de todo perdido. Foi tempo precioso em que pude trabalhar o meu EU interior. Mesmo estando há quase 2 meses sem ganhar nada financeiramente, não há dinheiro que pague o tempo dedicado ao desenvolvimento pessoal do qual pude usufruir nesta quarentena. 

21
Mar20

Ode ao isolamento social. Ou como ficar maluco em 5 dias.

Já não faço uma ode desde 2015, ano prolífero em inspiração, em que não só fiz uma ode ao kebab, como fiz outra ode aos tomates.

 

Vejam lá, que hoje acordei inspirada da minha vida, com aquela luz divina a cair-me nos cornos em modo angelical com direito a música de coro, e decidi escrever umas merdas no meu blog, à boa moda da dESarrumada, que aquela bitch nem sempre cá vem, mas quando vem parte a barraca toda.

 

Vamos lá?

 

Vamos pois.

 

 

Ode ao isolamento social

 

Tudo começou de um dia para o outro

O que era só uma simples gripe, segundo Emmanuel Macron,

Tranformou-se numa guerra sanitária,

E veio acabar com o famoso papel higiénico para limpar o bujon.

 

Já estou aqui que nem posso, de dormir mais de 10h por dia,

O sol esse, a trabalhar que nem um cão, já nem o via,

Mas agora ainda vejo menos, porque o velux do estúdio,

Uma limpeza já merecia.

 

Para sair, é preciso uma autorização,

Antes dava para preencher online e mostrar no telemóvel,

Mas um hacker decidiu que era a altura ideal para roubar informação,

E agora temos que copiar aquela merda toda à mão.

 

Já não escrevia tanto à mão desde a primária.

 

É a oportunidade ideal para ver séries, filmes e pornografia até cair,

O Pornhub aqui em França até já ofereceu uma conta premium gratuita.

Ok, esta quadra não vai rimar,

Mas com tanto porno em HD disponível até a patareca vai ficar aflita.

 

Se sempre quiseram testar os limites sebáceos do vosso cabelo,

esta é oportunidade perfeita.

Ver quanto tempo aguentam sem um banho.

Saber quanto é que crescem os vossos pêlos púbicos,

Podem testar aquele desodorizante zero waste, que tresanda, mas que sempre tiveram medo que os vossos colegas do work conseguissem cheirar.

 

Deixar o buço crescer até ao pescoço,

E apará-lo com o facalhão da cozinha.

Ok não se metam com o facalhão. Isso vai correr mal.

 

Qual cozinha? Não tenho. Estava só a brincar.

Já acumulei tanta tralha no estúdio que tenho que saltar obstáculos para chegar à cama.

Qual cama? Também não tenho.

É um sofá com um colchão mais fino que a pila do cachalote.

 

Não deixou saudades. Mas a experiência de quase morte que tive com ele, é tipo a experiência de morte eminente que o sistema de saúde público francês vai viver, brevemente, num hospital público perto de si. Porque entretanto os privados já deram à sola. Como em Portugal.

 

Mas isso já são outros quinhentos, como dizia a Avó Maria.

 

Pronto, isto no início rimava, já valeu pelo esforço,

Agora vou só dizer umas tretas soltas que me vierem à cabeça.

 

A minha vida tem sido:

Masturbação

Yoga

Meditação

Journalling

Visualização

Afirmações positivas

Ir comprar comida

Descer as escadas

Voltar para cima porque me esqueci da autorização

Copiar a autorização

Reparar que me enganei na data do decreto-lei

Recomeçar do zero

Escrever tudo outra vez

Tentar alegar que só tinha uma folha de papel em casa e deixar tudo entregue nas mãos de Deus

Ir às compras

Comer moelas pela terceira vez em dois dias porque é a única merda que sobra no corredor das carnes

Chegar à conclusão que o peixe aqui, para além de ser escasso, é nojento

E caro. Muito caro. Mas ainda não tão caro como o papel higiénico.

Esta gente pensa que o mundo vai acabar se não tiverem o rabo limpo?

Ou foi porque o Pornhub ofereceu um mês de premium grátis?

Não me digam que o papel higiénico é para se limparem depois?

 

Ok, foda-se, esta ode já descambou.

 

Vou só ali dormir a quarta sesta do dia.

 

E rezar para que a minha saúde mental aguente este isolamento em 12 metros quadrados.

 

Ontem bebi alcool sozinha, pela primeira vez na vida.

 

E ainda só vamos no 5º dia.

 

Arre foda-se.

 

Rogai por nós, irmões.

 

Beijo na bunda! 

 

 

24
Fev20

Guarda o teu regresso aqui.

Casa.

Vim passar o fim de semana ao Porto, estou neste momento a fazer tempo antes de ir passar a noite no aeroporto, "dormir" e ir embora amanhã de manhã muito cedo.

 

A formação já acabou, e já estou nostálgica das pessoas que conheci por lá. Ainda há pessoas boas neste mundo, e por isso agradeço. Nos últimos anos tenho tido sempre pessoas impecáveis a cruzar o meu caminho. E vocês, já agradeceram alguma coisa hoje?

 

Confesso, quando fui embora de Portugal achei que o mundo inteiro estava contra mim, achei que este país me queria mal, que as pessoas aqui eram más, basicamente, achava que nunca ia conseguir ser feliz aqui. Na altura havia uma rapariga, colega de profissão, que me fazia a vida negra lá no trabalho onde estava, a ganhar 3€/hora a recibos verdes. Saí por causa do salário, mas não só, acho que a razão principal foi achar que não tinha amigos em Portugal e que nunca ia ter. Agora apercebo-me de que tinha uma visão da vida muito distorcida e muito negativa. A maior parte das pessoas só está a pensar no seu umbigo, e não quer saber dos meus stresses e ansiedades. E curiosamente, a vida quis que eu fizesse mais amigos em Portugal nos últimos 5 anos, desde que fui embora, do que aqueles que fiz e consegui manter durante 23 anos de vida aqui.

 

A vida tem coisas do arco da velha, não tem? 

 

E a moça que me fazia a vida negra no meu antigo trabalho? 

 

Morreu no verão passado, de cancro, com 31 anos. Andava a tentar ser mãe e descobriu um cancro entretanto, que evoluiu muito rápido. Eu soube tudo pelas redes sociais... E quando alguém partilhou a foto dela no perfil dela, com a data de nascimento e data de falecimento, percebi que a vida pode ser muito curta, demasiado curta. E sinceramente, ao ver a foto dela, percebi que já não a odiava. Não por já não estar entre nós, todos sabemos que o cemitério está cheio de pessoas que ainda são muito odiadas - é o caso da minha avó paterna, da qual não podemos falar lá em casa, tal é o ódio que o meu pai lhe tem, e no entanto já faleceu em 2000 - mas porque percebi que o que ela me fez só me ajudou a tomar uma decisão que mudou completamente o rumo da minha vida, e que sem esse rumo que acabei por tomar, não teria tomado a decisão que tomei nestes últimos dias. E não seria quem sou hoje. Obrigada. 

 

Sei que hoje estamos aqui e amanhã já não estamos. Que tudo que sonhamos pode vir a desmoronar de um dia para o outro, e que já esperei tempo de mais para ser feliz... Está na hora. 

 

Decidi a maior decisão da minha vida, hoje, mas também pode não ter importância nenhuma, amanhã. Como quando esperamos durante meses um evento importante e depois o dia chega, e passa super rápido... Dizemos "já passou" e viramos as ideias na direção de outra coisa não é?  

 

Os projectos são assim, a maior parte do tempo não vale a pena fazer um grande alarido, após serem concretizados o cérebro passa para o próximo projecto muito rapidamente. Por isso é que a decisão mais importante a tomar, é a de aproveitar a jornada, aproveitar cada dia como se fosse o último. Porque um dia temos razão. A cada segundo alguém vive o seu último dia em vida na terra. 

 

E sobre Portugal... Cheguei à conclusão que este país não me odiava, nem as pessoas me odiavam, eu é que me odiava a mim mesma. Achei que estar longe era o melhor para mim. E na altura foi. Foi o que precisei para crescer, e talvez ainda precise de estar longe para aprender a amar-me e a descobrir o caminho de regresso até mim. Mas, ultimamente, sinto que estou cada vez mais perto de encontrar esse caminho. E que quando estamos bem connosco próprios, pouco importa o país, pouco importa a casa, pouco importa o salário... 

 

Não sei se já leram o livro O Alquimista do Paulo Coelho? Eu li no ano passado quando fui à Austrália (Já passou um ano? Como assim?), e identifiquei-me muito com o fim. Porque me sinto como aquele pastor. 

 

Sinto que, às vezes, muitas vezes, vamos dar uma "ganda volta", para voltar exactamente ao lugar de onde partimos. Como é que só vi isto agora? Foi a viagem que me mudou e fez-me perceber que, o lugar onde comecei esta caminhada, já era o meu destino. 

 

Sei que estou a chegar a casa.

 

 

04
Fev20

Lixo everywhere.

Ouvi dizer que os senhores que recolhem o lixo aqui em Paris estão em greve... Isso pode explicar porque é que tenho mais a impressão de estar num país como a Índia do que na Europa. Quase que não conseguia entrar no prédio onde moro com tantos sacos pretos, mal cheirosos e a escorrer molho, a bloquear a porta da entrada. 

27
Jan20

Um abre-olhos: o teste do Rosé!

Depois deste encontro falhado na passagem de ano... só voltei a ver o Half-French mais uma vez. Perto de minha casa porque ainda havia greve e eu ainda não sou nenhuma maluquinha das trotinettes - ainda! um dia meto-me numa e nunca mais me apanham, é ver-me por aí a dar à perna por Paris a fora!...

 

Ele chegou, 2 horas atrasado, em frente ao meu prédio (só avisou à última da hora como de costume), "desce" foi a mensagem dele. Fomos jantar ao restaurante que fica literalmente do outro lado da rua, passo lá todos os dias e quando vejo alguém a comer alquele hamburguerzão com guacamole até salivo... "olha vou pedir o hamburguer, e tu?" - perguntei. "Eu estou com vontade de uma tábua de enchidos para dois, não queres?" ... "não, para mim isso não é jantar, preciso de algo que encha mais...".... "ai, tu vens lá com aqueles hábitos de Portugal de quem come dois porcos inteiros ao jantar, come a tábua comigo, vais ver que enche"...

 

Aceitei o raio da tábua. Mas já estava a ver o meu futuro a andar para trás... já vão perceber...

 

"E vinho queres?" - perguntou.

 

"Não quero alcóol, estava mais numa de Coca-cola" - disse. Sim, sou Coca-cola addict, não julguem.

 

"Bebe uma garrafa de vinho comigo, que vinho preferes, queres tinto?" (rouge em francês)

 

"Epah... se tiver que escolher um vinho, prefiro ou branco ou rosé, mas tinto não" - ele aquiesceu.

 

Estávamos na conversa , ainda sobre os hábitos alimentares de Portugal e de como ele acha que quanto mais um país dá importância à quantidade de comida em vez da qualidade, mais pobre esse país é... (sim, ele é filho de portugueses e, diz gostar de Portugal, mas não perde uma oportunidade para mandar Portugal abaixo e dizer que a França é que é requinte, classe, boa educação, etc).

Chega o garçon.

Ele pede a tábua de enchidos. "E para beber?"

"Uma garrafa de tinto se faz favor"

...

...

...

...

...

Comecei a imaginar-me dali a 3 anos numa relação de submissão com este rapaz. Em que ele vai decidir tudo, o meu futuro profisisonal, quantos filhos vamos ter, a cor das minhas cuecas (é de notar que no primeiro date ele me disse que DEVIA usar batom mais escuro para combinar melhor com o meu cabelo escuro - de notar que nesse dia tinha metido o meu batom cor de rosa clarinho da Clinique, que custou nada menos que 32€, e ele ali a pedir-me para trocar de batom - FUCK!)

 

Estava eu a pensar nisto... quando o garçon chega com a garrafa de Rouge e pergunta se eu quero provar... respondi que não, que o Monsieur podia provar. Quando o garçon foi embora o Half ainda mandou para o ar "sabes que é a mulher que prova o vinho não sabes?". "sei, mas tu também sabias que não queria tinto e pediste na mesma". Ele não respondeu, mudou de assunto.

 

Nesse momento decidi que não estava ali o homem da minha vida. E que já o devia ter percebido desde o primeiro encontro. Mas gosto de ver até onde vai o ser humano, e sou pessoa de dar segundas oportunidades... Desta vez dei, mas ele não merecia.

 

Acabámos a noite no meu quarto, e foi muito bom. Mas eu sabia que ia ser a nossa última queca e por isso aproveitei ao máximo. Gosto quando sei que não vou voltar a ver o gajo. Normalmente já sou desinibida, mas quando sei que não é para ser sério, atrevo-me mais a fazer pedidos estranhos. No final "não tens aí nada que se coma? estou cheio de fome"... "eu avisei que a tábua não enchia!" - dei-lhe um iogurte que ele comeu logo...

 

Na manhã seguinte eu tinha que ir trabalhar, ele ficou a dormir lá em casa. "Quando nos voltamos a ver?" perguntou. Eu respondi "sábado às 15h para dar uma voltinha no parque de Belleville?".

 

"Ah, ainda não sei, depois digo algo..." - este moço é incapaz de assumir um compromisso com antecedência. É sempre tudo à última da hora. Não suporto, e não mostra empenho nenhum.

 

Sexta à noite e ele ainda sem confirmar nada. Recebo mensagem às 22h da noite "olha estou a beber uns copos com um amigo na tua zona, se não acabar muito tarde posso ir aí ter contigo?"

 

PFFFFFFF.... É que nem que ele tivesse pintado de ouro eu ia aceitar ser uma booty call! Never! Nunca! Jamé!

 

"Olha desculpa mas estou cansada e tenho a minha meditação para fazer... vemo-nos amanhã às 15h em Belleville?"... Silêncio... nem uma resposta.

 

No dia seguinte fui à minha aula de Yoga, que é ao lado do parque de Belleville... o Yoga acabou às 14h30. Fui passear no parque, plena, serena, tranquila. Estava um céu azul espectacular, mas frio com'ós cornos. Às 15h10 mandei mensagem "morreste?"

 

Continuei o meu passeio, depois voltei para casa. As 16h23 recebo mensagem: "sim, morri, ontem bebi demais e só acordei agora."

 

"d'accord" respondi.

 

Até terça não recebi mais nada dele. Depois, nessa noite, perguntou quando nos voltávamos a ver... respondi que tinha pensado muito e que não queria voltar a vê-lo... "desejo-te uma boa continuação", terminei assim a mensagem que lhe mandei.

 

A resposta dele "ah então és assim? quando as coisas não correm como queres, desistes de tudo? por um lado talvez não seja má ideia ficarmos por aqui, vê-se que és o tipo de mulher que cria conflitos por tudo e por nada"...

 

Não respondi.

 

...

...

...

...

...

 

Bendito Rosé! Va de retro Satanás!

 

Este gajo é tóxico! E estou feliz e contente de me ter apercebido a tempo! E foi assim que acabou esta história do Half-french, um gajo que tem claramente problemas de auto-estima e que é, muito provavelmente, um narcissista, como o meu EX.

 

Obrigada a todos que, por aqui ou pelo Instagram, ou Whatsapp, me ajudaram a abrir os olhos! Apaguei as apps todas. Estou em fase de detox, a pensar só em mim. E que bem que tenho estado 

 

Beijo na bunda! 

11
Dez19

França, não enviaste o formulário X!

França é o país da burocracia. Isto é papéis, formulários, pedidos de formulários e impressos para preencher por todo o lado. Quando se está a trabalhar em estatuto liberal... Então é o pesadelo... Comecei há 7 meses e o estúdio onde moro já não chega para guardar a quantidade astronómica de dossiers que tenho...

 

Este vídeo bastante antigo foi-me mostrado por uma amiga. E retrata bem, de forma satirizada, mas real, a confusão que é tratar de assuntos burocráticos por aqui. Pode parecer exagero, mas já me disseram muitas das frases que vão ouvir neste vídeo. E algumas delas são tão ridículas, que quando questionamos a pessoa, nem ela sabe explicar o que acabou de nos dizer...

 

O primeiro vídeo está em francês! Mas não vos apoquentais... Encontrei o mesmo em inglês! 😂

 

 

 

Beijo na bunda! 💋

 

30
Out19

3. Carro.

Disse que voltava aqui para te falar do meu carro.

 

Vendi o meu carro. O segundo que tive na vida. O primeiro comprei em Portugal com o meu primeiro salário, e dinheiro que tinha poupado durante 3 anos para fazer Erasmus. Intercâmbio no Reino Unido, para o qual fui seleccionada, somente duas vagas disponíveis! e do qual acabei por desistir, por pressão do meu pai, devido a dificuldades económicas... Estão a ver quando estamos entusiasmados para realizar um sonho, e os nossos pais, dos quais somos financeiramente dependentes, nos dizem a frase-mata-sonhos: "eu não tenho dinheiro para te pagar isso".

 

E vocês, ingénuos, aceitam o que os vossos pais decidiram que era o melhor para vocês... Apesar de saberem que, há bolsa, há formas de trabalhar para a universidade e ganhar uns trocos... Havia tanta forma de me ter safado, tanta solução, tinha tanta certeza de que ia correr bem, e mesmo assim ouvi o meu pai, e desisti. Lembro-me daquela quarta-feira, acordei cedo para ir falar com a professora responsável pela colocação nos Erasmus... 

 

"Professora, vim aqui para desistir da minha vaga e passá-la ao próximo na lista" (eu era a primeira a ter ficado colocada... Com a minha desistência, o terceiro colocado foi no meu lugar...)

 

"Você tem noção da oportunidade que está a deitar fora? Tem noção da quantidade de pessoas que queriam estar no seu lugar?"

 

"Tenho sim, mas por razões familiares não vou conseguir ir". 

 

Este foi um daqueles dias que mudou tudo na minha vida. O sonho de emigrar para o UK foi-se...

 

Saí daquela sala e contornei a minha escola por trás, para evitar o caminho principal e ter de me cruzar com pessoas conhecidas, em apneia fui caminhando entre os departamentos, até chegar à parte de trás da biblioteca, onde dava para ver a ria, e aquela paisagem magnífica que me acompanhou em muitas tardes de estudo... Era mesmo muito cedo, estava um bocado de nevoeiro. E a apneia foi-se. Comecei a chorar. Chorei tanto. Chorei (quase) tudo. Naquele dia senti que um caminho, de entre tantos outros caminhos que podia ter escolhido, tinha desaparecido para todo o sempre.

 

Chorei:

Por não ter nascido com mais posses monetárias,

Por não ter tido coragem de dizer foda-se ao meu pai,

Por ter tido medo de falhar e ouvir um "eu bem te avisei que o dinheiro não ia chegar".

 

Tive medo, muito medo... E com medo de desiludir os meus pais, desiludi-me a mim própria. E desisti...

 

Hoje não sei como teria sido a minha vida se tivesse ido para o Reino Unido e não para França? É engraçado... E ao mesmo tempo não tem piada nenhuma! Como um só segundo de indecisão, pode mudar tudo. O plano era: erasmus e depois procurar trabalho por lá. 

 

Entretanto, com o curso acabado, comprei o meu primeiro carro, com o qual não tinha sonhado, com o dinheiro de outro sonho... porque o trabalho que tinha na altura era relativamente longe de onde morava... Depois com as poupanças que voltei a fazer nesse trabalho, emigrei. Para França. O Reino Unido tinha um sabor tão agridoce que nem voltei a considerar essa hipótese. O primeiro carro lá ficou, com os meus pais, e irmão, são eles que o usam, já não me pertence... Mas quando vou a Portugal e vejo a puta daquele carro, não consigo deixar de pensar "e se tivesse ido?" 

 

Traz-me recordações pesadas. 

 

Chegada a França, numa terrinha com mais vacas do que habitantes, tive que voltar a comprar outro carro após um ano. Um carrinho pequenino, que ficou comigo por 3 anos. Chorei muito naquele carro, mas também ri muito. E as quantidades industriais de chocolate que comi lá dentro... Um carro tem sempre tantas histórias para contar não tem? Até o raio da matrícula tinha as minhas iniciais! 

 

Vendi-o no dia 2 de Setembro deste ano. Foi muito mal negociado e perdi quase tudo que paguei por ele... Só em TGV para o ir vender, foi quase tudo que me pagaram... Carros nunca são um investimento, mas isso eu já sabia. Contudo, fiquei mais leve. Não há gasolina para meter, não há inspecção para fazer, não há mais seguro para pagar. Aqui em Paris, quando quiser partir, é só pegar na troxas que tenho, meter tudo num saco (ou dois!) e bazar. Já não há mais nada para vender.

 

Sobre o carro#1: consegui perdoar o meu pai. E, 7 anos depois, a mim também... Mas só porque aprendi a aceitar que estou onde tenho que estar. É preciso deixar de pensar em quem podia ter sido, e concentrar-me na pessoa que sou e quero ser. 

 

Em termos materiais, não há mais nada que me prenda.

 

Ouve o que te digo, uma pessoa só se arrepende do que não faz... E isto que acabei de te contar é, provavelmente, o meu maior "e se..."

 

Mas a lista de arrependimentos a expurgar ainda é longa. Espero que estejas com paciência para ouvir. Obrigada por estares aí. 

 

 

25
Out19

2. Estúdio.

No estúdio onde moro tenho exactamente 7 móveis (dos quais constam 2 cadeiras de plástico do IKEA), 4 prateleiras num dos muros, que estão cheias de livros, um lavatório com um armário encastrado em baixo, que decidi não considerar como móvel por fazer parte do muro, onde cabem os meus produtos todos de beleza e higiene pessoal. Num dos cantos, uma cabine de duche AKA poliban.

 

Dentro da parte inclinada, está o que parece uma mini despensa separada com portas de correr, mas onde nem consigo entrar de pé... Nesse espaço tenho três caixas de arrumação de plástico, daquelas para os brinquedos das crianças, onde cabe, literalmente, a minha roupa toda. E mais 3 mini prateleiras no muro interio, onde consegui colocar algumas toalhas, as minhas meias e restante roupa interior, em caixinhas. Tenho outra caixa com produtos de limpeza que trouxe da casa antiga... Demasiados para aqui. Neste sítio a limpeza faz-se em 15 minutos. Sim, já contei. 

 

Tenho um mini-espaço para cozinhar, com um mini lava-louça, daqueles que fica cheio com um prato e um copo. Ao lado, duas placas para cozinhar. Por acaso aquilo aquece rápido e até vou conseguindo cozinhar qualquer coisa de jeito ali. É o que me safa. Mas isso começou há cerca de duas semanas, os primeiros 4 meses aqui, alimentava-me de pratos preparados, e encomendava muito em aplicações. Mas isso não é vida... Começou a custar-me ver tanto dinheirinho a voar assim... Já não bastava o outro que gasto com o chocolate. 

 

Num cantinho do chão, vou metendo os legumes que compro e que não cabem no frigorífico, que como podes imaginar, é daqueles tipo frigorífico de hotel, com 1 mini congelador em que a porta nem fecha bem e acaba por ficar geio de gelo em 2 tempos, depois já não cabe lá mais nada, e tenho que descongelar. Um ciclo sem fim... Uma vez por mês lá estou eu, de rabo para o ar, a secar a água que caiu para o chão durante o descongelamento. Esse frigorífico tem, mais duas prateleiras de fresco, uma gaveta em baixo, supostamente para legumes, mas onde só cabem 2 courgettes e 3 tomates de cada vez, e na porta, uma prateleira para ovos, mais precisamente, seis. 

 

O estúdio tem uma porta, e única, a da entrada. E de saída. Uma janela estilo Velux na parte inclinada do tecto, daquelas com vista para os telhados de Paris, que fica mesmo por cima do sofá-cama, oferecendo-me, em dias de chuva, o melhor ASMR para dormir que podia ter pedido.

 

A outra janela, proporciona-me uma vista para o "local" do lixo do prédio e é onde consigo avistar, ao longe, a torre de Montparnasse, com a sua luzinha azul sempre no pisca-pisca.

 

Estou aqui deitada no sofá-cama a escrever-te isto. E à espera que os dois aquecimentos eléctricos minúsculos aqueçam a divisão. Sim, moro numa única divisão. Agora, a minha vida toda cabe em 12m2. E ainda falta destralhar muita coisa. Quem diria. 

 

A casa de banho? Essa fica no corredor. Num cubículo minúsculo, onde só vou para fazer xixi e cocó. Que partilho com mais 4 estúdios como o meu. Creio que os outros sejam estudantes, porque nunca estão cá ao fim de semana. Aliás, nunca estão cá, ponto. Tenho o sexto andar, e meio!, só para mim. Nunca pensei viver num meio andar... 50% de um andar, no topo de um prédio, em Paris... Well, podia ser pior. Ao menos tem elevador. 

 

Já te disse que vendi o meu carro? A minha caixinha de fósforos que tanto me levou para sítios? Vou só ali dormir um bocadinho, amanhã já te conto mais sobre isto. 

 

Bem-vindos ao meu diário, um lugar seguro onde podemos falar sobre tudo. Já comentaram hoje? Bisou, da vossa dESarrumada.

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