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Diário de uma dESarrumada

A espalhar o #cagandoeandando por essa internet fora desde 2015.

Diário de uma dESarrumada

A espalhar o #cagandoeandando por essa internet fora desde 2015.

13
Jun19

Como ser mais rápida?

Sempre fui uma pessoa lenta. Quando digo lenta não é aquele tipo de pessoa que demora a fazer algo. Eu sou mais aquele tipo de pessoa de só ter 3 velocidades: lento, lentinho e devagar.

 

ser_lento.jpg

 

 

Sempre achei que era procrastinadora. E sou. Mas, fui abençoada com duas maldições: procrastino, e quando finalmente me decido a fazer algo, demoro imenso. Ou porque gosto de verificar tudo vezes e vezes sem conta, ou porque tenho receio de me esquecer de alguma etapa, ou porque simplesmente não tenho confiança suficiente me mim própria, para chegar lá, fazer e pronto. Não se fala mais nisso.

 

Na escola demorava a fazer trabalhos. Demorava a estudar. Faço o mesmo caminho em 20 minutos, que outra pessoa demora 5. Gosto de parar e olhar. Ou pelo menos achava que gostava.

 

Mas esta característica minha, que em muitas situações pode ser uma qualidade, tornou-se um defeito grande nesta última semana. O facto de demorar a fazer as coisas tem-me feito sair do trabalho muito tarde. Quero verificar tudo, ter a certeza que não me enganei ou esqueci de algo. Eu sei que isto em si não é o problema, isto é um sintoma, de ansiedade. Muita.

 

Não sinto o peito sempre apertado como há uns anos atrás, quando comecei o blog. Nesse aspecto a última sequência de sessões com a psicóloga conseguiu ajudar... mas fiquei com outras coisas, que já tinha, mas que agora consigo ter clareza suficiente para saber que já não me posso refugiar nelas...

 

Quero perder esta lentidão. Quero ser alguém decidida e rápida... mas como chegar lá? Sinto que já percorri tanto caminho nesta luta contra a ansiedade... que já desenvolvi tanto... mas quando ultrapasso um obstáculo, chega logo outro, e mais uma vez digo: isto é para a vida toda.  

03
Abr19

A ursa de peluche mágica.

Tenho uma ursa de peluche chamada Dodoca. Foi-me oferecida aos 10 anos pela minha mãe, com o pretexto de eu ter sempre a companhia da mamã para dormir.

 

Na altura já tinha muitas insónias e não conseguia adormecer à noite, ora porque tinha medo do amanhã - ansiedade, ansiedade, ansiedade - ora porque estava longe da minha mãe.

 

Na altura a minha mãe disse-me que a Dodoca era um peluche mágico, ela permitia-me sentir a presença dela, onde quer que estivesse, mesmo estando muito longe! Eu acreditei, afinal, aos 10 anos as mães não mentem nem têm dúvidas, sabem sempre o melhor para nós.

 

A Dodoca acompanhou-me desde os 10 anos até à minha entrada na universidade. Quando fui para Aveiro estudar não a levei. Durante a minha primeira visita de fim de semana a casa, a minha mãe fez questão de, sorrateiramente, meter a ursa dentro da minha mala. E lá foi ela de comboio comigo para Aveiro. Por lá ficou, durante os 4 anos em que estive a tirar o curso, e durante o primeiro ano e meio de trabalho.

 

Depois vim para França. E a Dodoca regressou à base, sentada entre as almofadas da minha cama de adolescência.

 

Quando vou a Portugal tento sempre trazê-la para França, completamente esborrachada dentro da mala de cabine do avião. Mas antes de vir embora, não sei como, a minha mãe volta a tirá-la sorrateiramente "Então agora vais levar a ursa daqui para França? Nem pensar!" diz-me ela falsamente indignada quando lhe pergunto onde escondeu a Dodoca. 

 

De há uns tempos para cá, e sobretudo desde que disse à minha mãe que ia morar para Paris, ela tem falado comigo ao telefone no meu quarto, ao lado da ursinha de peluche. E de vez em quando manda-me fotos dela. Acho que têm passado muito tempo juntas.

 

Parece-me que nos últimos anos a Dodoca mudou gradualmente de função. Antes a sua magia tinha o poder de acalmar uma menina quando esta estava longe da mãe, hoje em dia ela acalma uma mãe que está longe da filha. Por mim, desde que me apercebi desta nova habilidade da Dodoca, nunca mais tentei trazê-la comigo. E está tudo bem assim.

 

18
Nov18

Olá.

O colhão com pernas foi embora esta quarta-feira. Fiquei com lágrimas nos olhos o dia todo, e ele veio dizer-me adeus, deu-me dois beijinhos e tudo... houve pessoas a quem ele nem disse um simples adeus... por isso até fiquei contente por ter tido a honra de receber uma despedida oficial. Talvez o meu trabalho até tenha contado alguma coisa para ele. Já se sabe, sonhar não custa...

 

Foi tão estranho olhar para a secretária dele e ela estar vazia, sem as pilhas de papéis e tralha que costumavam estar em cima dela. Talvez seja uma espécie de síndrome de Estocolmo ou algo do género, mas até vou ter saudades dele, de o ver a pavonear-se todo lá pelo local de trabalho, com aquela farda cor-de-rosa que nós usamos. Foi o mais próximo que eu estive de ter um flamingo insuflável na minha vida. Inchado de orgulho para esconder a baixa auto-estima. Num cargo de poder que foi obrigado a aceitar. Sem ser talhado para o exercer.

 

Que pena quando pessoas, que até são boas pessoas, mas emocionalmente desequilibradas, acabam por ter cargos com poder a chefiar equipas. Não sabem gerir-se emocionalmente, não sabem lidar com os problemas da equipa nem gerir outras pessoas, deixam que um pequeno conflito se torne num drama de um mês, ou vários. Porque alimentam intrigas, porque entram no diz-que-disse. Pudessem todos os chefes ser íntegros e imparciais e o mundo do trabalho seria um lugar tão mais feliz. 

 

A verdade é que com flamingo ou sem flamingo tenho que continuar a ir trabalhar. E já "só" faltam 7 meses para acabar o contrato que assinei com eles. Tic-tac-tic-tac. O tempo está a passar e eu estou quase a pirar-me. Entretanto solteira e boa rapariga tenho andado concentrada em mim. Só em mim mais ninguém. Bem, talvez não esteja inteiramente sozinha, o António Vibrações tem sido um companheiro de todas as horas. Firme e hirto como só ele sabe ser, a animar-me quando mais preciso, tem sempre uma palavra amiga para me deixar feliz. Que sensação libertadora esta de saber que posso viver sem um homem...

 

Oh céus. Tantos projectos, tantas coisas que ainda quero fazer nesta vida. Talvez um mestrado, talvez uma formação de 5 anos, talvez um retiro espiritual no Nepal, talvez uma roadtrip na Europa. O cérebro fervilha de ideias de viagens, coisas para fazer, livros para ler. A ansiedade não tem morado aqui e que bem que sabe estar afastada desta moça, por uns tempos. Mas ela volta, e que volte, cá estarei de braços abertos para a receber e até lhe pago um café. É isto a verdadeira liberdade, estarmos conscientes de nós mesmos. Saber como vamos reagir a determinada situação e o que vai fazer disparar a ansiedade, e saber acalmá-la, sem a extinguir completamente, como se fosse uma amiga de longa data que de vez em quando passa só para dizer "olá".

14
Set18

Como tirar o melhor partido de um in-between?

Depois do trabalho fui às compras. Voltei a fazer HIIT em casa, ando a seguir uns vídeos na internet, e senti uma vontade imensa de comer legumes, abastecer o meu corpo de nutrientes. Fui directa à secção de legumes. Focadíssima. Ainda olhei de soslaio para o corredor dos chocolates, mas não senti vontade. Desta vez não me apanharam, mais tarde.

 

Fazer desporto deixa-me mais concentrada, e ligeiramente mais feliz. O facto de ser sexta-feira também ajuda. Estou naquela fase em que anseio pela sexta-feira à noite, e isso não é bom sinal. As semanas passam a correr e parecem todas iguais. Dias e dias que se seguem. Estou entre duas linhas da to-do list da minha vida. Literalmente à espera do próximo passo. E já tomei uma decisão, só espero o grito de partida que há-de vir.

 

 

Encontro-me neste exacto num momento chamado in-between. Uma fase intermediária entre duas fases da vida diferentes, onde uma pessoa acha, erradamente, que nada de importante acontece.

 

 

Esta fase é descrita como um período da vida entre dois objectivos. Quando já atingimos um e estamos à espera do próximo. Vamos lá analisar isto aplicado à minha vida. Há 1 ano e 2 meses completei uma formação em Paris que me deu muito gozo fazer, algo que nunca pensei ser capaz. A primeira vez que soube da existência dela estava em pesquisas na internet sobre o trabalho existente na minha área em França, pesquisei a área em que queria trabalhar mais a palavra formação e caí no site daquela formação. Lembro-me de pensar algo do género "wow, tirar esta formação deve ser algo de espectacular". Mas na altura estava em Portugal, a recibos verdes, prontinha para outra fase, a emigração, que só veio alguns meses mais tarde e nem era certo se o faria ou não. Estava também, nessa altura, num in-between.

 

Não seria capaz de imaginar, nem nos meus melhores sonhos, que aquela formação, cujo programa só percebi uma palavra em cada três, ia constar no meu currículo, três anos mais tarde. Uma pessoa esquece tudo que já fez, tenho muita tendência para olhar só para o que "ainda não tenho" e a esquecer tudo que já fiz. Um país novo, uma cultura nova, uma língua nova, ganhar competências novas, tudo isto foram coisas que consegui e que o meu cérebro teima em esquecer.

 

 

Quando atinges um objectivo que te parecia inimaginável ele passa a fazer parte do teu dia a dia.

 

 

E como é fácil esquecer o esforço e trabalho que algo exigiu depois de já estar feito. Como é fácil dizer para mim própria: és uma fraca, nunca conseguirás fazer isto e aquilo, a tua vida está estagnada. Quando estou simplesmente numa fase de "entre-dois". Quando sei que isto tudo é um caminho que escolhi percorrer e que já sabia que não ia ser fácil. Emigrar sozinha não é fácil. Apesar de muitas vezes não acreditar nisso e dizer que qualquer um conseguiria... não! Nem todos conseguem! Muita gente insiste em dizer-me coisas do género "deve ser tão difícil estar sozinha noutro país, eu não conseguiria". 99,9% das vezes que ouço isto interpreto-o como uma demonstração de pena, penso que as pessoas têm pena de mim ao dizer isto, que a minha vida é tão porcaria que as pessoas me dizem: ah! coitadinha! Deixar de ligar ao que os outros dizem tem sido o trabalho de uma vida. Um dia chego lá.

 

E se mudasse esta forma de pensar e ouvisse as coisas como as pessoas o querem transmitir? Afinal, estão com pena ou a dizer-me que sou corajosa? E se estiverem com pena? Porque é que acredito neles? A minha vida não dá pena. Sim, estou sozinha noutro país, sim, muito provavelmente se amanhã cair numa cama de hospital só vou ter umas três visitas. Mas não há muita gente que está na mesma cidade que todas as pessoas que conhece e que também se sente sozinho? Porque é que insisto em ter pena de mim própria? A pena não leva a lugar nenhum. Nem a raiva. Nem o medo. 

 

E é nisto que tenho que pegar para me dar força, para prometer a mim própria que vou conseguir vencer os meus medos internos, neste fase de in-between, uma fase que costuma ser sempre das mais assustadoras da minha vida, e ao mesmo tempo das mais entusiasmantes. Uma fase em que uma pessoa pode simplesmente deixar-se levar e tirar algum tempo para cheirar as flores. Afinal, nesta fase não há nada para correr atrás, é só viver um dia de cada vez.

 

 

 

Sei que tenho falado bastante de ansiedade e medos aqui no blog, mas isto faz parte de mim desde que sou gente. Tive insónias no primeiro dia da escolinha com 6 anos, quando fui para o 5º ano, secundário, universidade e primeiro trabalho. Até a escolha do meu curso me provocou ataques de pânico, vómitos à noite, queda de cabelo, durante 2/3 meses, desde as candidaturas até ao dia em que saiu o resultado da 1ª fase. Com cerca de 3 anos eu entrei em pânico à noite porque tinha que aprender as formas triângulo, círculo, quadrado e rectângulo para o dia seguinte, porque a professora ia fazer perguntas sobre isso. Nessa noite não dormi. Por causa de um estúpido triângulo. Com 3 anos. Primeiro ataque de ansiedade. Não dormi. Por isso, sou assim desde que me conheço e vou falar disso no meu blog até me cansar. Escreverei sobre este assunto até me doerem os dedos. Até o fogo que me arde por dentro se extinguir.

 

13
Set18

Isto são fases, senhores.

[atenção, texto que pode conter triggers para pessoas ansiosas]

 

Hoje foi dia de consulta com a psicóloga. Acabei por lhe dizer que não me tenho sentido tanto com um aperto no peito como antigamente. Que me sinto melhor nesse aspecto, a vontade de chorar é menor. No entanto, disse-lhe que ando a sentir uma raiva constante, uma vontade de gritar com tudo e todos. Uma injustiça constante. Como se alguém me estivesse sempre a passar a perna. Isto de ter colegas infantis não ajuda... "se não tiver aquelas férias de Natal que quero despeço-me...", "ficar com estagiários é uma merda, porque é que aceitas isso?"... "dizes que sim a tudo, depois andas sempre a correr e não ganhas mais por isso."

 

Foda-se tu e as tuas merdas! Vai pó caralho e deixa-me estar! Quanto andaste a estudar também gostaste que alguém te tivesse recebido enquanto estagiária, não foi? Que mundo cão. Que bosta de gente, imbecilidade ao metro quadrado, só olham para o umbigo deles. Não sabem o que é fazer algo pelo prazer da fazer, pelo prazer de evoluir. Eu não preciso de ganhar mais para querer fazer mais no meu trabalho. Que mundo seria este se ninguém fizesse mais do que aquilo para que é pago? Como poderia haver progressão? Ainda por cima ter estagiários faz parte do contrato de trabalho que assinei, ninguém está a fazer mais do que aquilo que é suposto. E eles também assinaram o mesmo contrato que eu, ou não?... No deles havia alguma cláusula a dizer que as ordens do chefe não valem nada? Que os valores da instituição são para desrespeitar? 

 

Há gente que só anda no trabalho à espera do dia de pagamento. Só isso, não há um único pingo de consciência profissional. Estão-se a cagar para tudo e todos. Ide todos pó caralho bando de enculés.

 

A psicóloga diz que eu sou como uma cebola, e que as minhas camadas estão a cair. Primeiro foi a tristeza, depois apareceu a raiva. E que isso é uma coisa boa. Querer mandar vir com toda a gente nem sempre é mau, segundo ela. Às vezes não é o ser simpático que nos leva longe, é o ser real. E eu ainda não passei a essa fase de dizer o que penso. Guardo, acumulo, e depois sofro de implosão! Expludo para dentro! Ela diz que chego lá. Eu acho que estou numa fase em que já me apercebi que a vida vai ser sempre uma linha com altos e baixos, que a minha meta de felicidade eterna não vai acontecer. Que para lá do arco-íris não vou encontrar o pote de ouro. E isso é uma porcaria, porque sempre me prometeram felicidade. E sempre tive grandes sonhos. E a vida é só uma grande merda, e que afinal são os pequenos momentos que valem tudo. Mesmo assim estimo bem que eles se fodam todos.

 

 

27
Ago18

Diário de bordo 27.08.2018

Escrevo isto no domingo à noite (muito tarde) mas vai sair no blog na segunda-feira de manhã, porque isto já não são horas decentes para postar algo - insónia, whatelse??? Este foi o primeiro domingo do verão em que esteve mais fresquinho. Dormi com um pijama de mangas e calças compridas, e acordei gelada às 6h da manhã. Levantei-me para colocar uma mantinha em cima de mim, enrolei-me toda em modo casulo e sabe-se lá como voltei a adormecer até ao meio dia.

 

Ontem, sábado, comecei um grande destralhe aqui por casa. Adivinhava-se um fim-de-semana sem actividades previstas, e para além de ir às compras de comida no sábado e dar uma corrida no domingo, não fiz mais nada para além de arrumar e destralhar. Estou a fazer com calma, ao meu ritmo. Pois só assim funciona comigo. Nunca fui uma pessoa de pressas no que à casa diz respeito, e aceito-me assim. Parei para ir lendo uns livros ou ver uns episódios de séries, já agora, This is us é SÓ uma das melhores series de sempre. Destralhei imenso. Mas ainda falta muita coisa.

 

Cancelei uns planos que tinha para o próximo sábado. Quero continuar nesta missão de arrumar tudo que acumulei ao longo de mais de 3 anos e meio em França. E pensar que cheguei cá só com a roupa do corpo e mais 30kg de mala. Agora tenho um apartamento T2 cheio de tralha, da qual me quero livrar.

 

No meio das arrumações encontrei uma caixinha de incensos que tinha trazido de Portugal. Comprei-a algures durante o meu último ano de estudos, na loja Natura, numa altura em que estava prestes a entrar em estágios e cheia de dúvidas sobre se tinha feito a escolha correcta ao vir para esta profissão, e decidi começar a fazer meditação. Com incenso e velinhas, porque era mais zen.

 

Sempre recorri a este incenso, não de forma regular, mas quando andava mais ansiosa. Especialmente no meu primeiro ano de trabalho, e único ano de trabalho em Portugal. Desde que o trouxe para França raramente o usei, primeiro porque no início não vivia sozinha, e segundo porque quando mudei de casa ele "perdeu-se" no meio da confusão aka buraco negro que é aquela divisão para tralha - ao que algumas pessoas gostam de chamar despensa. Acendi-o ontem. Ainda sobram alguns bastões (não sei qual é o nome oficial dos "pauzinhos" de incenso?).

 

Olhem, o meu apartamento está a cheirar a Portugal, ou pelo menos aquilo que ele era para mim quando me vim embora. A casa cheira aos meus últimos estágios. Cheira a esperança, a sonhos, cheira a tudo que fui e já não sou. Já lá vão 6 anos desde que o comprei, já lá vão 6 anos desde que o respirei pela primeira vez, já lá vão 6 anos desde que andei perdida e não sabia o que o futuro me trazia. Não é que agora não ande perdida - sinto-me mais perdida do que nunca - mas ao menos já sei o que não quero.

 

Ainda me lembro do meu primeiro trabalho. De estar a morar num estúdio de um sótão com uma área de 3x3m. Tinha uma única janela de Velux no tecto, que não abria. Lembro-me de ter começado a minha vida profissional muito por baixo, de ter arriscado tudo, de ter apanhado um comboio para trabalhar a 2h de casa, porque na minha zona não havia nada para mim e queria começar a trabalhar o mais depressa possível. Ganhava sensivelmente 3€ à hora, às vezes mais, outras vezes menos. Sentia uma pressão enorme no trabalho, colegas infernais, e uma depressão a começar. Deitava-me a chorar e acordava a chorar, deixei de ver um futuro, fiquei paralisada, sem conseguir agir.

 

Depois de algum tempo lembro de me dizer que a vida não podia ser só aquilo... vezes e vezes sem conta. E o raio do incenso deixava aquele mini-estúdio empestado, tinha que abrir a porta que dava para as escadas do prédio para o estúdio arejar. Vim embora, foi a solução que encontrei para sair daquela dormência em que estava. A trabalhar 12h/dia era difícil encontrar tempo para enviar CV's e ir a entrevistas. E despedir-me para encontrar trabalho com poupanças quase nulas e sem saber quanto tempo isso poderia demorar, na altura, estava fora de questão.

 

Portanto, este cheiro fez-me lembrar do meu início, e este post foi o resultado das reflexões que tive durante o dia todo. Fez-me pensar em tudo que imaginei para a minha vida e não aconteceu. O facto de pensar que iria ter uma oportunidade assim que saísse da universidade... depois apercebi-me que estava a ser ingénua, muito ingénua mesmo. Nada cai do céu, muito menos para alguém que não tem cunhas e não foi especialmente brilhante durante as aulas. Atenção, tinha boas notas, mas era marrona, não consegui cair nas boas graças de nenhum professor que me oferecesse um trabalho na sua clínica, ou me convidasse para dar aulas na escola, como aconteceu a alguns colegas. Isso a mim nunca me aconteceu.

 

Talvez não tenha acreditado com força suficiente, talvez não tenha confiado em mim própria o suficiente. Vim embora. Mas podia ter ficado e ter continuado a tentar. Foi uma escolha minha. Não o considero desistir, considero que trouxe a minha luta para outro país onde o salário que ganho me permite pagar as contas todas e ainda fazer algumas "extravagâncias". Sei que se tivesse ficado não teria vivido tudo que já vivi, teria de certeza vivido outras coisas espectaculares, mas diferentes. Não me arrependo nem por um segundo das decisões que tomei. Mas é impossível não pensar no que poderia ter sido. E não sentir esta vontade de voltar, mais para provar a mim própria que consigo, do que por outra coisa qualquer.

 

Os amigos que tinha em Portugal foram-se afastando pouco a pouco. Só falo com 3 pessoas lá, para além da minha família, e uma delas estou a pensar cortar relações porque só me fala quando lhe é conveniente (estão a ver aquele tipo de pessoas que só fala deles mesmos e que nunca pergunta como estamos? Ela é assim). Resumindo, se voltasse para Portugal teria que começar do zero, como se fosse outro país qualquer, excepto o facto de já falar a língua e conhecer a cultura.

 

É curioso, mas quando faço arrumações, é como se vasculhasse nas gavetas internas da minha mente e abrisse tudo outra vez, para as arrumar melhor. Sinto que tenho muitos assuntos internos que nunca ficaram verdadeiramente resolvidos. Só fechei a gaveta cheia de tralha e nunca mais pensei nela. Mas, está na altura de arrumar as minhas gavetinhas, uma a uma. Demore o tempo que demorar. Sei que quando tudo estiver arrumado, por dentro e por fora, serei mais eu. E poderei, finalmente, começar a viver a minha verdadeira vida. E mandar o seu rascunho para a reciclagem.

 

 

P.s: Este é o tipo de posts que não formato porque saiu tudo de uma só vez, sem reflexão. Se as ideias estiverem confusas ou sem nexo, não se preocupem que eu também não. Só queria mesmo tirar isto do peito.

 

P.s.2: Não justifiquei o texto porque no meu post sobre as dicas de como escrever num blog a Joana Rita disse que por cada texto longo que for justificado morre um unicórnio. E Deus me acuda se morrer algum unicórnio mai'fofo por minha culpa.

 

03
Jul18

Isto da saúde mental...

A ansiedade até andava controladinha, mas desde que estou de férias tem sido o descontrolo total relativamente à alimentação e a cabeça já está a dar em doida por ver o corpo a aumentar de tamanho.

 

Eu sou muito mais do que o tamanho do meu corpo.

Eu sou muito mais do que o tamanho do meu corpo.

Eu sou muito mais do que o tamanho do meu corpo.

Eu sou muito mais do que o tamanho do meu corpo.

Eu sou muito mais do que o tamanho do meu corpo.

(...)

 

Nota: repetir este mantra até à exaustão. Não posso deixar que estes pensamentos negativos sobre o aumento de peso me afectem. Sou mais do que isto. E a ansiedade que já andava tão controladinha...

... depois isto funciona como uma bola de neve. Há um aspecto que me incomoda, e a minha cabeça vai desgovernada à procura de outras coisas que estejam mal... sim, porque haver só "uma coisita" que não vai bem não pode, ou a vida é uma merda pegada ou então não vale a pena queimar neurónios.

 

Agora voltei a pensar em mudar de trabalho, eu que já tinha decidido deixar correr e ir vendo as ofertas que aparecem até ao início de 2019... penso no exame de francês que tenho que fazer no dia 19 de Julho e sinto que quanto mais olho para a matéria menos sei... penso neste corpo que me está a "falhar", e ao mesmo tempo sinto que estas preocupações corporais demonstram mesmo a situação privilegiada em que me encontro e o quão parva sou em "preocupar-me" com estas coisas (ando a comer chocolates e gelados sem parar, uma ingestão calórica muito maior do que aquela que preciso, e há países onde as pessoas não têm sequer a comida que precisam para sobreviver... sou a única que pensa nisto desta forma? que sente esta culpa por comer de mais?) and so on, and so on...

 

A ver se volto rápido para os meus green juices, corridas de dois em dois dias e a ter um dia ocupado. Parecendo que não, ir trabalhar, por muito que eu não goste daquele trabalho, deixa-me ocupada e permite-me estar "a ser útil" 8h por dia. Estar de férias é quase um atentado à minha saúde mental...  e que pena eu tenho que isto seja assim...

17
Jun18

Aleatoriedades da vida.

Às vezes estamos tão concentrados em sair do poço que nem nos apercebemos que estivemos o tempo todo no poço errado. E quando dizem que as coisas negativas que nos acontecem só vão fazer sentido mais tarde? Cada vez mais acredito nisto. Apesar de ainda não ter ideia nenhuma de para onde a minha vida caminha, sinto-me muito mais em paz com as decisões que tomei e continuo a tomar. E grande parte da minha ansiedade vem desta ideia de "e se tivesse escolhido diferente?". Guardo sempre esta sensação cá dentro de mim de que devia ter optado por outro caminho, e que nunca saberei o resultado de todas as minhas outras escolhas. Talvez por influências externas, medo de arriscar ou de perder o conforto conquistado. Mas, sinto-me melhor, começo a acreditar que estamos sempre onde devemos estar. Se hoje ainda estou aqui é porque é aqui que está a minha maior aprendizagem. Às vezes o facto de esperar, e aprender a fazê-lo, só por si já é a maior lição.

E falando de escolhas, no fundo, bem lá no fundo, ninguém quer saber das nossas decisões, as opiniões dos outros não são tão importantes como pensamos quando somos adolescentes e jovens adultos. A opinião dos nossos pais e amigos deixa de importar tanto, ou mesmo nada. Se sou bem sucedida ou não, isso cabe-me a mim decidir, não aos outros. E afinal, o que é mesmo o sucesso? Aquilo que acho que os outros têm nem sempre é o que me faria feliz a mim. Uma simples viagem sem rumo e sem horários na natureza pode fazer-me mais feliz do que ter um negócio próprio e estar sempre ocupada. Sinto que ainda tenho tanto para conhecer sobre mim própria e que o segredo pode estar aí. Na auto-descoberta. Descoberta essa que às vezes levamos uma vida inteira a construir e desconstruir. E a vida lá se vai fazendo caminhando para a frente, de qualquer modo, nunca conseguiremos adivinhar o futuro nem mudar o passado. O presente é tudo que temos. 

16
Mai18

Ok, e agora?

Hoje dormi quatro horas e meia. Apanhei um comboio TGV em Paris às 6h da manhã para estar a horas no trabalho. Mais uma vez a SNCF (CP francesa) conseguiu desiludir-me. Não tive greve no meu comboio (yupiiii, escapei à greve que já dura há bastantes meses) mas, sabe-se lá como,o comboio conseguiu atrasar 23 minutos, e perdi a ligação que só podia fazer em 18 minutos. Puta que pariu a todos, enfiem a vossa pontualidade no cu!

 

Pronto, agora que já estou mais calma... Vou contar-vos para já que a reunião com a ONG foi muito interessante. Recebi informação sobre as diferentes missões nas quais poderei estar interessada e se antes já tinha dúvidas, agora penso que ficaram quase todas respondidas, mas... isto sem um mas não tinha piada, estou com uma crise de confiança em mim própria. Uma vozinha pequenina na minha cabeça diz-me que este tipo de "aventuras" não são para pessoas como eu, que os outros são melhores e mais corajosos, que eu vou ser mal sucedida e que eles se vão arrepender se me chamarem. Claro que nada está decidido e isto ainda é muito embrionário, mas o meu cérebro nem era ele mesmo se não começasse a fazer o filme todo sozinho.

 

Ser como eu é muito cansativo. Gostava de trocar de cérebro só um bocadinho, talvez 2 ou 3 vezes por semana, ser daquelas pessoas que nunca se questionam sobre nada e vão em frente. Isto é o meu diário, mas mais parece a porra de um muro das lamentações sobre ansiedade e dramas existenciais. Antes isso do que um hate blog para falar mal de outros blogs, deus me livre. Mas mesmo assim, a ver se acordo para a vida antes que se faça tarde. Ansiedade, insegurança, dúvidas, ide à vossa vida suas putéfiazitas.

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