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Diário de uma desarrumada

Sátiras da vida de emigrante de uma desarrumada.

Diário de uma desarrumada

Sátiras da vida de emigrante de uma desarrumada.

23
Set18

Por uma vida com mais sabor, por favor.

Estar solteira, num meio rural, onde não há muitas actividades disponíveis para pessoas da minha idade deixa-me um pouco em baixo. Fazer entre 20 minutos a 1 hora de carro para aceder a actividades, sejam elas desporto, aulas de artes e diversas outras coisas que gostava de estar a fazer, desmotiva-me.

 

 

Gosto de pegar no carro para fazer uma ou outra actividade esporádica, mas como não aprecio conduzir, estar a pegar no carro 2 a 3 vezes por semana não dá. Já tentei no passado com inscrições no ginásio mais próximo daqui, mas conduzir durante 20 minutos para fazer os mesmos exercícios que posso estar a fazer em casa (os meus preferidos são mesmo os exercícios com o peso do corpo, não sou muito adepta das máquinas) e pagar um balúrdio para só fazer uma aula uma vez por semana, não me apanham mais nisso.

 

Por todas estas razões e por uma questão de oportunidades profissionais pretendo trocar de cidade em 2019. Do próximo ano não passa! Mas ainda tenho alguns meses de espera até poder seguir o meu caminho...

 

Enquanto isso não chega, não posso estar aqui sentada de braços cruzados, não posso andar aqui pelos cantos a ter pena de mim própria, e estou farta de esperar pelo depois para ser feliz, para dar asas a projectos só meus, saídos directamente da minha mente... criar, inventar. Neste momento os meus tempos livres são maioritariamente ocupados com o computador e alguns livros. Mais algum exercício que vou fazendo sozinha ou com a H. Sinto que o meu músculo criativo está a atrofiar, estou sempre a ser um receptor de informação, mas, tirando aqui o blog, produzo muito pouco. Cair nesta realidade foi muito duro. Perceber que, tirando a minha profissão, não tenho outra paixão.

 

Quando era pequena afundava-me em papéis cheios de desenhos feitos por mim, eram eles com lápis de cor, lápis de cera, aguarelas, tudo e tudo. Não parava quieta. Eu desenhava vestidos e outras roupas, eu desenhava planos de casas, muros, vasos, objectos de decoração. A minha família chegou a pensar que eu iria seguir o ramo da arquitectura. Não. Segui a área da saúde. Trabalho com pessoas. Ajudo pessoas a andar, sentar, levantar-se, pegar num copo, fazer coisas que antes não conseguiam fazer. Ajudo, em equipa, a dar um novo sentido à vida. Todos os dias assisto ao virar da página de muitas pessoas. Pessoas que tinham um plano de vida, ir de A até B, como todos nós, mas devido a um acaso amargo do destino vêem-se agora na situação de terem de passar por um ponto C alternativo porque o B deixou de ser acessível. E muitas descobrem-se a elas mesmas durante este processo, descobrem que o ponto C também pode ser doce. Que ainda há muito para viver. Que mesmo sem os quatros membros funcionais podem pintar quadros magníficos com a boca.

 

Isto são tudo coisas do meu quotidiano que às vezes me dão aquela sensação de murro no estômago. E de achar que não vivo a vida como devia estar a viver. Que passo muito tempo a procrastinar. Eu posso andar, correr, mexer os braços, e não faço tanto como desejaria fazer com a minha vida. Estou entorpecida no meio do mar de ideias do que quero e não avanço. Os meus doentes são a minha maior motivação. E também o meu maior abre-olhos.

 

Não sei em que ponto da vida é que uma pessoa se pode aperceber se fez uma escolha de carreira errada ou não. Mas não acho que seja o meu caso. Adoro o que faço, mesmo, muito. E quero continuar a fazê-lo. Mas a vida tem muitas áreas que podem ser fontes de prazer. Tenho o sonho, talvez impossível, ou não, de fazer coisas que me deixem feliz profissionalmente e pessoalmente. E quero que estas coisas sejam diferentes. Não quero passar os meus tempos livres a ler livros sobre a minha profissão como tenho feito. Sou alguém com vários interesses e o que faço nos tempos livres não me tem deixado feliz. Muito pelo contrário. Sinto-me como uma casa de gelados em que uma pessoa vai e só tem gelado de pistácio na lista. Quando me pedem para descrever-me uso na maior parte das vezes a minha profissão para o fazer. E isso não chega para mim, não está a chegar. 

 

Em Portugal, durante o meu único ano de trabalho por lá, frequentei aulas de pintura à noite. Fiz 2 quadros. Que ainda estão em casa dos meus pais e que eu adoro ver quando vou lá. O resultado de um tempo investido que perdura no tempo. Tenho saudades disso. E por isso comecei à procura de aulas de pintura, desenho, costura, tricot, crochet, aqui na zona. A modalidade pouco me importa. Só sei que preciso de criar e de sair um bocadinho do mundo virtual. Fazer coisas reais, tocar, sentir, criar memórias físicas. Fazer algo que me ajude a viver melhor os cerca de 9 meses que ainda tenho que passar aqui... se não encontrar aulas vou ser auto-didacta, aprender sozinha, como fazia quando era pequena. Não há-de ser difícil. Acho é que me esqueci de como isso se faz. 

 

Só sei que sinto falta de trabalhar o meu lado criativo nos tempos livres. Sinto falta de fazer uma actividade em que tenha um resultado visível no fim, poder dizer "fui eu que fiz isto" e pendurá-lo numa parede, ou no armário, ou meter numa estante. Acho que algures neste processo de chegar ao meu ponto B me perdi, perdi a minha essência criativa, o meu espírito de imaginação, a capacidade de brincar com cores e texturas. Esqueci-me de como é fazer algo sem querer obter reconhecimento profissional por isso. Esqueci-me que o alfabeto tem outras letras e que a minha vida não é só a minha profissão. Deixei cair os meus outros sabores de gelado. Tornei-me num gelado mono-sabor e eu quero ser um banana split, com gelado tutti-frutti, mais chantilly e topping de mini-biscoitos e morangos aos pedacinhos.

 

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