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Diário de uma dESarrumada

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29
Jul20

Montanhas.

Há exactamente cerca de um ano atrás comecei a fazer sessões ao domícilio a uma velhinha acamada. A senhora não vê, a vida dela consiste em encadear dias infinitos, com o pescoço em hiperextensão e os olhos fixos no tecto, enquanto emite sons indistintos ou palavras soltas em árabe. De vez em quando lá diz uma palavra em francês, para chamar a filha... filha essa que a vai visitando, uma vez por mês, se tanto.

Eu vou vê-la duas vezes por semana, durante 1 ano inteiro só falhei uma semana em Dezembro de 2019, a única semana de férias que tive desde que me mudei para Paris.

Durante a sessão a auxiliar da senhora, Madame Dembele, uma senhora africana que veste aqueles vestidos típicos com mil cores e que tem sempre um sorriso na cara, pega numa cadeira e fica sentada aos pés da cama, a ver a sessão enquanto me conta coisas da vida dela e de outrém, de França ou de além-mar.

Esta senhora é positiva, sempre de bem com a vida, já passou por muita merda, e mesmo assim está ali, com um sorriso na cara e palavra leve para tornar o quotidiano daquela velhinha acamada, o melhor possível...

Hoje cheguei lá, como todas as terças e quintas-feiras meti a minha mala no chão, tirei os sapatos e fui lavar as mãos (cenas pós-corona, os sapatos, as mãos já lavava antes), e a Madame Dembele veio atrás de mim para a casa-de-banho para me dizer que na quinta-feira não ia haver sessão. Era o último dia daquela senhora naquele apartamento, a filha tinha anunciado que ia mudá-la para um lar de idosos. 

Fiquei em choque. Talvez pela naturalidade com que ela me disse aquilo, como se a rotina fosse continuar a ser a mesma, como se nada fosse mudar para ela. Adoro quem consegue aceitar as mudanças da vida assim, num piscar de olhos aceita-se a nova realidade que está ali, sem questionar, sem resistir.

Fiz a minha sessão sem dizer nada à frente da senhora, porque não é suposto ela perceber que vai deixar a sua casa dos últimos 50 anos para ir morrer viver um lar. Não querem preocupá-la, palavras da filha, diz-me a Madame Dembele. Quanto ao apartamento, este será provavelmente vendido por um milhão de euros antes do final do verão. 

No fim da sessão, lavei as mãos, peguei na minha mala, calcei os sapatos e antes de sair pela porta fora disse à Madame Dembele "obrigada por este úlitmo ano, aprendi muito consigo, desejo-lhe uma boa continuação". Sorri-lhe, mas estava com máscara e ela não viu.

Ela sorriu-me de orelha a orelha, estava sem máscara, por isso eu vi-lhe o sorriso branco a sobressair, em parte, graças à pele escura.

"Tenho a certeza que ainda nos encontramos por aí! O mundo é pequeno, só as montanhas é que não se voltam a encontrar."

 

Muito obrigada Madame Dembele.

 

montanha_blog_desarrumada.jpg

 

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