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Diário de uma desarrumada

Sátiras da vida de emigrante de uma desarrumada.

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19
Mai18

Memórias de África.

Nasci no coração de África.

 

Voltámos para Portugal quando eu tinha 7 anos.

 

Quando era mais nova cheguei a guardar rancor aos meus pais por termos voltado. Afinal, criança que cresceu noutro continente, com valores completamente diferentes, ia ser vítima de bullying. E fui.

 

Recordo hoje com carinho aquele cheiro, um cheiro que só África tem. Curiosamente pensei que só ia voltar a senti-lo se voltasse ao sítio onde nasci, no entanto, voltei a sentir aquele cheiro em Fevereiro, na viagem a Marrocos. Deve ser um cheiro que impregna o continente inteiro. Um dia hei-de descobrir se isto é verdade.

 

Recordo aquela terra cor-de-laranja,  barro, que eu e o meu irmão usávamos para construir bolos de terra. Que grandes cozinheiros que nós éramos. Esparramados no chão, tardes e tardes a fio, só tínhamos escola de manhã. E que bom que era ter tempo para brincar.

 

Recordo os meus coleguinhas de escola. Tinham a pele muito mais escura do que a minha. O Ivandro e a Violeta, os dois com belos cabelos encaracolados que eu secretamente invejava. Os meus pais dizem que o Ivandro foi o meu primeiro namoradito, eu acho que foi eleele e ele. Nunca dei nenhum beijinho ao Ivandro, pelo menos que me lembre. Mas sei que demos as mãos, e aos 5 anos dar as mãos era muita coisa, era tudo. Hoje é o equivalente a nada.

 

Recordo aquelas pedras douradas preciosas que apanhava quando íamos ao rio. A minha mãe dizia que as pessoas faziam a "apanha" do ouro ali, e por isso havia muitas pedras que tinham ouro misturado na sua composição. Mas não valiam nada. Eu não acreditei nela, para mim valiam tudo. Ainda cheguei a ver algumas pessoas, brancas, a passar as pedras do fundo do rio em peneiras, à procura do famoso mineral, deitavam todas fora. Eu levava os bolsos cheios delas para casa. Eram preciosas que baste para ficarem a brilhar nas prateleiras do meu quarto..

 

Recordo o pôr do sol enorme, com o sol bem perto da terra característico de uma região equatorial. Pensava eu que um dia poderia tocar o sol e sentir de que matéria ele é feito. Sonhava muito, passava muito tempo sozinha perdida nas minhas imaginações e ilusões. Até o meu irmão vir brincar comigo, e aí voltávamos a ir brincar para o meio da terra.

 

Não havia muitos brinquedos. No Natal não havia muitos presentes para desembrulhar e era tão feliz. Porque já tinha tudo. Naquela altura não era preciso muito para deixar uma criança feliz. Com nada se fazia muito, e com muito pouco se fazia o suficiente.

 

Recordo os sonhos que tinha na altura. Desde pequena que tenho o sonho recorrente de que estou a voar. Começo a pairar em cima de um relvado verde, e pouco a pouco, vou ganhando velocidade e altura, quando dou por mim estou a voar por cima dos telhados e dos mercados da fruta. Parei de ter este sonho algures durante a licenciatura. Talvez quando comecei a acreditar que voar era impossível, que nunca iria ganhar asas, tal como nunca iria receber a carta para Hogwarts. 

 

Nunca encontrei ouro. Mas estas memórias valem muito ouro. Hoje partilho-as convosco. Guardem-nas bem porque tenho medo de perdê-las. Tenho medo que me escorram por entre os dedos, qual areia cor-de-laranja entre os dedos de uma criança.

 

Se pudesse voltaria a voar e a procurar ouro naqueles rios de água límpida. Voltaria a sonhar e a tentar tocar no sol. Afinal, de que matéria é ele feito? Será que é da mesma matéria de que são feitos os sonhos?

 

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