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Diário de uma desarrumada

. desarrumações . emigração . humor parvo . lifestyle . badalhoquices . coisas de gaja .

Diário de uma desarrumada

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27
Ago18

Diário de bordo 27.08.2018

Escrevo isto no domingo à noite (muito tarde) mas vai sair no blog na segunda-feira de manhã, porque isto já não são horas decentes para postar algo - insónia, whatelse??? Este foi o primeiro domingo do verão em que esteve mais fresquinho. Dormi com um pijama de mangas e calças compridas, e acordei gelada às 6h da manhã. Levantei-me para colocar uma mantinha em cima de mim, enrolei-me toda em modo casulo e sabe-se lá como voltei a adormecer até ao meio dia.

 

Ontem, sábado, comecei um grande destralhe aqui por casa. Adivinhava-se um fim-de-semana sem actividades previstas, e para além de ir às compras de comida no sábado e dar uma corrida no domingo, não fiz mais nada para além de arrumar e destralhar. Estou a fazer com calma, ao meu ritmo. Pois só assim funciona comigo. Nunca fui uma pessoa de pressas no que à casa diz respeito, e aceito-me assim. Parei para ir lendo uns livros ou ver uns episódios de séries, já agora, This is us é SÓ uma das melhores series de sempre. Destralhei imenso. Mas ainda falta muita coisa.

 

Cancelei uns planos que tinha para o próximo sábado. Quero continuar nesta missão de arrumar tudo que acumulei ao longo de mais de 3 anos e meio em França. E pensar que cheguei cá só com a roupa do corpo e mais 30kg de mala. Agora tenho um apartamento T2 cheio de tralha, da qual me quero livrar.

 

No meio das arrumações encontrei uma caixinha de incensos que tinha trazido de Portugal. Comprei-a algures durante o meu último ano de estudos, na loja Natura, numa altura em que estava prestes a entrar em estágios e cheia de dúvidas sobre se tinha feito a escolha correcta ao vir para esta profissão, e decidi começar a fazer meditação. Com incenso e velinhas, porque era mais zen.

 

Sempre recorri a este incenso, não de forma regular, mas quando andava mais ansiosa. Especialmente no meu primeiro ano de trabalho, e único ano de trabalho em Portugal. Desde que o trouxe para França raramente o usei, primeiro porque no início não vivia sozinha, e segundo porque quando mudei de casa ele "perdeu-se" no meio da confusão aka buraco negro que é aquela divisão para tralha - ao que algumas pessoas gostam de chamar despensa. Acendi-o ontem. Ainda sobram alguns bastões (não sei qual é o nome oficial dos "pauzinhos" de incenso?).

 

Olhem, o meu apartamento está a cheirar a Portugal, ou pelo menos aquilo que ele era para mim quando me vim embora. A casa cheira aos meus últimos estágios. Cheira a esperança, a sonhos, cheira a tudo que fui e já não sou. Já lá vão 6 anos desde que o comprei, já lá vão 6 anos desde que o respirei pela primeira vez, já lá vão 6 anos desde que andei perdida e não sabia o que o futuro me trazia. Não é que agora não ande perdida - sinto-me mais perdida do que nunca - mas ao menos já sei o que não quero.

 

Ainda me lembro do meu primeiro trabalho. De estar a morar num estúdio de um sótão com uma área de 3x3m. Tinha uma única janela de Velux no tecto, que não abria. Lembro-me de ter começado a minha vida profissional muito por baixo, de ter arriscado tudo, de ter apanhado um comboio para trabalhar a 2h de casa, porque na minha zona não havia nada para mim e queria começar a trabalhar o mais depressa possível. Ganhava sensivelmente 3€ à hora, às vezes mais, outras vezes menos. Sentia uma pressão enorme no trabalho, colegas infernais, e uma depressão a começar. Deitava-me a chorar e acordava a chorar, deixei de ver um futuro, fiquei paralisada, sem conseguir agir.

 

Depois de algum tempo lembro de me dizer que a vida não podia ser só aquilo... vezes e vezes sem conta. E o raio do incenso deixava aquele mini-estúdio empestado, tinha que abrir a porta que dava para as escadas do prédio para o estúdio arejar. Vim embora, foi a solução que encontrei para sair daquela dormência em que estava. A trabalhar 12h/dia era difícil encontrar tempo para enviar CV's e ir a entrevistas. E despedir-me para encontrar trabalho com poupanças quase nulas e sem saber quanto tempo isso poderia demorar, na altura, estava fora de questão.

 

Portanto, este cheiro fez-me lembrar do meu início, e este post foi o resultado das reflexões que tive durante o dia todo. Fez-me pensar em tudo que imaginei para a minha vida e não aconteceu. O facto de pensar que iria ter uma oportunidade assim que saísse da universidade... depois apercebi-me que estava a ser ingénua, muito ingénua mesmo. Nada cai do céu, muito menos para alguém que não tem cunhas e não foi especialmente brilhante durante as aulas. Atenção, tinha boas notas, mas era marrona, não consegui cair nas boas graças de nenhum professor que me oferecesse um trabalho na sua clínica, ou me convidasse para dar aulas na escola, como aconteceu a alguns colegas. Isso a mim nunca me aconteceu.

 

Talvez não tenha acreditado com força suficiente, talvez não tenha confiado em mim própria o suficiente. Vim embora. Mas podia ter ficado e ter continuado a tentar. Foi uma escolha minha. Não o considero desistir, considero que trouxe a minha luta para outro país onde o salário que ganho me permite pagar as contas todas e ainda fazer algumas "extravagâncias". Sei que se tivesse ficado não teria vivido tudo que já vivi, teria de certeza vivido outras coisas espectaculares, mas diferentes. Não me arrependo nem por um segundo das decisões que tomei. Mas é impossível não pensar no que poderia ter sido. E não sentir esta vontade de voltar, mais para provar a mim própria que consigo, do que por outra coisa qualquer.

 

Os amigos que tinha em Portugal foram-se afastando pouco a pouco. Só falo com 3 pessoas lá, para além da minha família, e uma delas estou a pensar cortar relações porque só me fala quando lhe é conveniente (estão a ver aquele tipo de pessoas que só fala deles mesmos e que nunca pergunta como estamos? Ela é assim). Resumindo, se voltasse para Portugal teria que começar do zero, como se fosse outro país qualquer, excepto o facto de já falar a língua e conhecer a cultura.

 

É curioso, mas quando faço arrumações, é como se vasculhasse nas gavetas internas da minha mente e abrisse tudo outra vez, para as arrumar melhor. Sinto que tenho muitos assuntos internos que nunca ficaram verdadeiramente resolvidos. Só fechei a gaveta cheia de tralha e nunca mais pensei nela. Mas, está na altura de arrumar as minhas gavetinhas, uma a uma. Demore o tempo que demorar. Sei que quando tudo estiver arrumado, por dentro e por fora, serei mais eu. E poderei, finalmente, começar a viver a minha verdadeira vida. E mandar o seu rascunho para a reciclagem.

 

 

P.s: Este é o tipo de posts que não formato porque saiu tudo de uma só vez, sem reflexão. Se as ideias estiverem confusas ou sem nexo, não se preocupem que eu também não. Só queria mesmo tirar isto do peito.

 

P.s.2: Não justifiquei o texto porque no meu post sobre as dicas de como escrever num blog a Joana Rita disse que por cada texto longo que for justificado morre um unicórnio. E Deus me acuda se morrer algum unicórnio mai'fofo por minha culpa.

 

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