A saúde e os números.
Hoje foi um dia de merda no trabalho. Daqueles dias em que nada faz sentido e que uma pessoa chega ao final do dia a sentir que é só mais um número, que afinal está aqui só para contribuir a preencher uma lista qualquer de "doentes vistos" por mês. E sabe-se que aqui (França) os apoios da Segurança Social dependem cada vez mais da actividade que registamos e isso mete-nos uma pressão enorme em cima. Porque se não atingirmos os números a torneira é fechada e os estabelecimentos têm que fechar. Quando a saúde passa a ser só sobre números, e menos sobre pessoas, a coisa começa a descambar.
A maior parte dos profissionais de saúde não entrou nas respectivas formações para preencher estatísticas e passar o dia todo a correr a apagar fogos. Quando comecei nunca pensei que iria chegar ao final do meu dia de trabalho e achar que não fiz nada de verdadeiramente significativo pelo outro. Fala-se muito do burn-out nas profissões de saúde, cada vez mais compreendo as pessoas que estão de baixa, quando dizem que chegam a um ponto em que já não ouvem o doente e que só lhes apetece ou desligar e não dizer nada ou começar a gritar com toda a gente.
Não fosse isto um blog anónimo e nunca diria isto, mas sim, confesso que às vezes não estou a ouvir o doente. Às vezes já estou a pensar no próximo doente, ou ainda estou a matutar em coisas que o anterior me contou. Às vezes estou a pensar nas transmissões que tenho que escrever, ou na chamada que tenho que fazer, ou na agenda que tenho que organizar. E às vezes saio do trabalho muito mais tarde do que devia porque tenho esta parte administrativa para fazer. Durante o dia não há tempo para parar, pensar e reflectir se o que estou a fazer é o mais correcto, e isto semanas e semanas seguidas. Às vezes perco o fio condutor da minha intervenção, às vezes sinto que não dou o meu melhor. Às vezes vou de férias e penso em certos doentes o tempo todo, às vezes estou em casa na cama e lembro-me que me esqueci de fazer determinada coisa que tinha dito que ia fazer, e que o doente vai pensar que me esqueci dele. E esqueci mesmo.
E tenho insónias. E de manhã estou cansada. E depois tiro férias, tento relaxar, mas no último dia de férias já estou a pensar em tudo o que me espera no trabalho e lá se vai o estado zen. E o stress de domingo à noite mais a ansiedade de ter que voltar para um trabalho onde estou constantemente a apagar fogos, desses nem vou falar... às vezes gostava que estas coisas que me acontecem só às vezes, não me acontecessem tão frequentemente. Gostava de ter tempo para exercer a minha profissão. Será pedir muito?
Bem-vindos ao meu diário, um lugar seguro onde podemos falar sobre tudo. Já comentaram hoje? Bisou, da vossa dESarrumada.
