Conheço vários casais de emigrantes que estão na Suíça. E, apesar de não falar regularmente com eles, sigo o que vão fazendo por lá nas redes sociais. Admito que é um país que me desperta alguma curiosidade e que gostava de conhecer. Então lá vou eu toda contente ver o que postam, na esperança de que mostrem coisas giras desse país.
Efectivamente eles vão passeando e fazendo as suas visitas como qualquer pessoa.
Mas comem onde? Restaurantes portugueses. Comem o quê? Bacalhau e leitão. Saem com quem? Amigos portugueses. Vão a que tipo de bares? Bares portugueses. Bebem o quê nesses bares? Super Bock ou Licor Beirão. A que tipo de festas vão? Vão àqueles encontros de portugueses em que há Toy, Tony Carreira e fadistas. Quando vão a algum lado diferente tipo bowling, kart, etc. São sítios em que a gestão é feita por portugueses.
Fico sempre naquela dúvida se na Suíça não há actividades, bares, restaurantes, geridas por suíços e/ou outras nacionalidades, ou se é mesmo a malta portuguesa que prefere andar em manada e não se quer misturar. Ou se são só estas pessoas que sigo que são assim, e que há outros portugueses por lá que se misturam mais. Quero acreditar que sim.
Pessoalmente não vejo a emigração dessa forma. Se decidi mudar de país, não é para viver como se ainda estivesse em Portugal. Vejo isto como uma oportunidade de expandir horizontes, conhecer outras culturas e formas de estar na vida. Aliás, até houve bastantes hábitos que trouxe de Portugal que decidi abandonar, por já não me servirem, e que não tenciono voltar a ter, mesmo que um dia regresse para Portugal.
Para mim ir embora é isto, é crescer. É alargar o coração para outras tradições, comidas, bebidas, lugares, poderem entrar e ganhar casa. É criar um cantinho para todas as coisas que gosto nos dois países. É sentir-me um bocadinho dos dois países. É ter saudades de França quando estou em Portugal e de Portugal quando estou em França.
É saber que isto vai ser um "problema" no sentido em que vou adiar, adiar e adiar a decisão de voltar. Porque também me sinto bem aqui. E a minha família dizer que já não volto. E eu não sei se isso é verdade ou não, se tivesse um emprego que goste em Portugal, com alguma dignidade, costumo dizer que voltava já amanhã. Mas será verdade? Será que voltava mesmo? No fundo de mim, sei que nada sei. Só quero sentir-me bem, e neste momento sinto-me bem aqui. E o tal emprego de sonho em Portugal ainda não apareceu. E vou adiando.
Depois de uma semana sem meter aqui os cutos, eis que estou aqui para dar o ar da minha graça. Pois bem, tive um fim-de-semana agitado em que fui assistir a um congresso. Gostei muito do congresso e a amiga que me recebeu também foi muito boa para mim e sabe receber muuuuuito bem (obrigada!).
O resto da semana foi a tentar meter ordem na casa e a sair com colegas de trabalho e o moço. Ah pois é, as coisas com aquele rapaz do Tinder andam a ficar um bocado sérias, bastante mesmo... já tive a minha crise de ansiedade por causa disto. Será que é muito cedo para voltar a ter alguém? Será que devia esperar para encontrar um português? Será que a actividade profissional dele me vai incomodar muito no futuro? (trabalha muitos fins-de-semana e muitas horas durante a semana...)É lixado quando nem o momento presente podemos aproveitar porque o cérebro está sempre a descarregar pilhas e pilhas de dúvidas na nossa mente... Ontem veio aqui jantar e trouxe um ramo de flores lindíssimo, já não recebia flores há anos... adorei, pois claro. E antes que pensem que ele faz estas coisas para me saltar à cueca, enganam-se, ele quis vir jantar aqui e já sabia de ante-mão que eu estava com o período e não haveria nada para ninguém. Ora, adoro quando ele se faz de convidado e vem aqui passar a noite, mas desta vez levou com uma pratada de legumes que nem é bom lembrar! Não me apeteceu estar a mudar o meu plano de menu só porque ele vinha cá...
De resto, o trabalho tem corrido muito, muito, bem. Nem acredito que a saída da vaca invejosa em Novembro pudesse trazer tanta coisa boa... continuo a dizer, e direi sempre, é incrível como às vezes uma única maçã podre consegue envenenar todo um local de trabalho.Arre, ainda bem que esta se foi embora! Assim vou poder reembolsar a minha dívida - faltam 15 meses - sem stresses. A menos que venha para aqui uma laranja podre, aí arranco os cabelos, pago o que tiver a pagar e meto-me nas putas. Por enquanto vou ficando... Quando é que desisti dos meus sonhos profissionais? Não sei, mas às vezes abrandar e parar com aquele pensamento constante de "tenho que procurar melhor" também faz bem.
A modos que foi uma semana de muita ansiedade, tanta que nem conseguia vir aqui ao blog, mas acalmou, e aqui estou eu para vos desejar um ótimo fim-de-semana e dar um beijinho, daqueles bem gostosos, na vossa bunda musculada, espero, pronta para o Verão!!!
Uma pessoa pensa sempre que os seus sonhos são únicos, que mais ninguém pensou naquilo. Depois vemos alguém fazer aquilo com que temos sonhado e sai a famosa frase "merda, tinha pensado naquilo primeiro, porque não avancei?".
Uma coisa que me tem ajudado quando estou em fase de "bloqueio de motivação" - ou como gosto de lhe chamar "vontade de mandar todos os sonhos p'ó catano e dedicar-me à plantação de urtigas" - é pensar em quantas pessoas que estiveram nas mesmas circunstâncias que eu, ou até piores, conseguiram realizar o sonho que eu quero realizar.
Ainda são algumas, e isso acalma-me nos meus stresses. Se outros conseguem eu também hei-de conseguir, e um dia vai ser a minha vez de avançar com uma ideia. Toda a gente tem algo de bom a acrescentar a uma ideia, mesmo que outros já tenham feito parecido.
A cena é que sinto que ainda não chegou o momento certo. Estou à espera de estar num lugar melhor. Não fisicamente, mas psicologicamente. Quando esse momento chegar espero que uma luzinha divina desça sobre mim e eu aproveite a oportunidade. Há cavalos que só passam à nossa porta uma vez, ou montamos logo, ou ele vai à sua vida... e depois ficamos a ver, não cavalos, mas navios!
Hoje foi um dia de merda no trabalho. Daqueles dias em que nada faz sentido e que uma pessoa chega ao final do dia a sentir que é só mais um número, que afinal está aqui só para contribuir a preencher uma lista qualquer de "doentes vistos" por mês. E sabe-se que aqui (França) os apoios da Segurança Social dependem cada vez mais da actividade que registamos e isso mete-nos uma pressão enorme em cima. Porque se não atingirmos os números a torneira é fechada e os estabelecimentos têm que fechar. Quando a saúde passa a ser só sobre números, e menos sobre pessoas, a coisa começa a descambar.
A maior parte dos profissionais de saúde não entrou nas respectivas formações para preencher estatísticas e passar o dia todo a correr a apagar fogos. Quando comecei nunca pensei que iria chegar ao final do meu dia de trabalho e achar que não fiz nada de verdadeiramente significativo pelo outro. Fala-se muito do burn-out nas profissões de saúde, cada vez mais compreendo as pessoas que estão de baixa, quando dizem que chegam a um ponto em que já não ouvem o doente e que só lhes apetece ou desligar e não dizer nada ou começar a gritar com toda a gente.
Não fosse isto um blog anónimo e nunca diria isto, mas sim, confesso que às vezes não estou a ouvir o doente. Às vezes já estou a pensar no próximo doente, ou ainda estou a matutar em coisas que o anterior me contou. Às vezes estou a pensar nas transmissões que tenho que escrever, ou na chamada que tenho que fazer, ou na agenda que tenho que organizar. E às vezes saio do trabalho muito mais tarde do que devia porque tenho esta parte administrativa para fazer. Durante o dia não há tempo para parar, pensar e reflectir se o que estou a fazer é o mais correcto, e isto semanas e semanas seguidas. Às vezes perco o fio condutor da minha intervenção, às vezes sinto que não dou o meu melhor. Às vezes vou de férias e penso em certos doentes o tempo todo, às vezes estou em casa na cama e lembro-me que me esqueci de fazer determinada coisa que tinha dito que ia fazer, e que o doente vai pensar que me esqueci dele. E esqueci mesmo.
E tenho insónias. E de manhã estou cansada. E depois tiro férias, tento relaxar, mas no último dia de férias já estou a pensar em tudo o que me espera no trabalho e lá se vai o estado zen. E o stress de domingo à noite mais a ansiedade de ter que voltar para um trabalho onde estou constantemente a apagar fogos, desses nem vou falar... às vezes gostava que estas coisas que me acontecem só às vezes, não me acontecessem tão frequentemente. Gostava de ter tempo para exercer a minha profissão. Será pedir muito?
Chegou a factura da luz. De Março de 2017 a metade de Janeiro de 2018 paguei um total de 262€. O que me fode toda é que desta quantia toda só 88€ é que foram consumo de electricidade. O resto são IVA's, taxas, adesões e outras punhetas que tais. Só me enrabam. E não é daquela maneira boa. Já agora, alguém que mande vir para aqui 1kg de lubrificante que os acertos da água também devem estar a chegar e eu andei com uma fuga no sifão da sanita e lavatório durante mais de 6 meses.
Tenho uma colega de trabalho nova há cerca de 3 meses. Ela é polaca, loura, usa um daqueles pares de óculos super grandes - modo mosca/on - e fala de uma forma super sensual, parece que está sempre a tentar engatar toda a gente. Ela só fala de sexo e daquele a quem ela chama, sempre com a mão sob o lado esquerdo do peito, tão carinhosamente de "my man" (vim a descobrir que é um italiano emigrado na Polónia, que anda sempre em viagens internacionais pelo mundo todo e que pelos vistos fode muita bem).
Ela tem 35 anos, solteiríssima e tem aquela atitude "I don't give a fuck" estampada no rosto o tempo todo, a postura dela é puro chill, anda lá pelos corredores, entre os quartos dos utentes, como se estivesse numa esplanada com uma caipirinha na mão, e olha para nós com um olhar de escárnio quando lhe falamos em assuntos do trabalho. Usa expressões do género "eu quando chego a casa nunca penso em trabalho", "eu só penso em mim e na minha saúde mental", "não vou aceitar conselhos de pessoas mais jovens do que eu, já levo mais de 10 anos disto", etc.
Quase que poderia ser a mulher perfeita relativamente à forma como anda, fala e leva uma vida pessoal tão descontraída. Contudo, no trabalho é a pessoa mais desleixada de sempre, negligencia toda e qualquer função que lhe seja dada, às vezes coisas até relativamente simples, que ela, do alto da sua experiência de mais de 10 anos, devia conseguir fazer com uma perna às costas. Tinha tudo para ser um dos meus ídolos vivos na vida pessoal, pena termos calhado no mesmo lugar de trabalho!
Escusado será dizer que ninguém a suporta e já toda a gente quer que ela vá embora... Assim não dá, pá, dái-me algum colega de equipa de jeito, um só que seja, por favor. *
*isto inspirou-me a falar mais sobre os os meus colegas de trabalho... tenho tanto para contar! Fiquem por aí e não percam os próximos episódios...
Não sei que droga é que aqueles bacanos tomavam antes de ir para o trabalho para estarem assim tão contentes, a assobiar, a cantar e o caralho. Mas eu quero 200 gramas. Da mais forte.
Querido diário, já me apercebi que fico mais triste e deprimida quando volto para França depois de passar férias em Portugal. Normalmente esta situação dura sensivelmente 2 meses. Dois meses em que "morro" de saudades, dois meses em que sofro de ansiedade constante, medo de "nunca mais lá voltar", medo de não realizar todos os projectos que me passam pela cabeça quando lá estou.
Dois meses depois e tudo passa. Parece que a mente esquece os cheiros, as vozes, os lugares. Parece que tudo está a uma distância enorme, a vida continua, outros projectos surgem, eles estão lá e eu estou cá. Sinto que ir lá (às vezes) só me faz mais mal do que bem. No momento estou óptima, mas quando volto passo por umas semanas horríveis, em que só penso em voltar. Sinto que ir lá várias vezes por ano interrompe o meu processo de luto, o luto que tenho vindo a fazer por ter escolhido sair do país e deixar tanto para trás. Adoro ir e ver a família, os amigos, tudo. Mas isso tudo também me provoca uma dor danada. Deixa-me um sabor doce na boca que depois se vai transformando em azedo.
Hoje sei, eu sou a alma que tenho no corpo. Eu vivo no momento presente. Não me serve de nada estar a pensar no amanhã ou no ontem. É seguir em frente. É saber que enquanto me tiver a mim mesma tudo vai correr bem, seja em que país do mundo for. E não caio em ilusões, em sonhos e devaneios de que no estrangeiro vou ser isto e aquilo. Caí na real, como dizem. Sei hoje que o que importa na vida são os pequenos momentos diários, as pequenas conquistas. Não adianta ter sonhos de grandeza, não adianta estar sempre na ânsia de subir a montanha, subir, subir, e depois de chegar lá em cima ver que está nevoeiro e que a vista cá em baixo é que é a mais bonita.
Hoje sonho com os dias de paz que tenho tido. Não me interpretem mal, se quiser escolher muita coisa que está a correr "mal" eu consigo dizer umas quantas. É muita confusão no trabalho com a pressa para fazer "números", é preciso ver cada vez mais doentes em menos tempo, é muitas situações de mal-entendidos com colegas, mais as coisas com o meu namorado que não têm estado bem. Muita coisa está a correr mal, mas eu escolhi estar em paz. Tenho duas pernas, dois braços, posso comer, respirar, sou independente moral e financeiramente, moro na Europa (e isso é uma sorte dos diabos, uma pessoa às vezes nem pensa), posso ir para onde quiser, posso sonhar com tudo que quiser. Sei que o dia de amanhã vai chegar, o sol ainda vai brilhar muitas e muitas vezes ao longo da minha vida, espero. Por isto tudo hoje digo obrigada. Amanhã tudo poderá ser diferente e posso cair no fundo do poço outra vez. Mas hoje estou em paz e mesmo que quisesse arranjar motivos para estar triste, não conseguiria.
Não tenho calma. Quero tudo o mais rápido possível, de preferência para ontem. Se começo um processo de emagrecimento, desejo perder 10kg em 7 dias. Se começo a trabalhar, desejo ter sucesso em 3 anos. Se começo um blogue profissional quero que este seja conhecido logo no 1º ano.
Mas tudo na vida leva o seu tempo, tudo demora a amadurecer, e muitas das coisas que hoje vemos que têm sucesso (excepto alguns casos excepcionais) foram situações que demoraram anos até chegarem às bocas do mundo.
Mas para quê esta pressa? Para quê toda esta frustração escusada que trago dentro de mim?! Tenho de meter na minha cabeça, de uma vez por todas, que não sou uma falhada, estou é a começar.
Estou com vontade de divagar sobre algo que ainda não tinha falado neste blog (falei no meu antigo, mas quando passei para este blog não trouxe os posts comigo)...
Este post é programado, por isso quando ele sair espero estar a curtir milhões as belas vistas do arquipélago de Estocolmo e a beber um cafezão daqueles num momento bem hygge.
O porquê de estar a morar numa cidade em França que me agrada mais ou menos, mas com um trabalho que já não consigo suportar. Porquê? Pergunto eu todas as manhãs.
Na vida podemos escolher tudo, e quando digo tudo, parto do pressuposto que com a escolha da forma como me quero sentir também posso, de alguma maneira, modificar a minha realidade.
Sobre mim, vim para aqui através de uma proposta que vi na Internet... na altura pareceu-me bem começar por uma vila pequena, não sabia muito da língua, e estando o meu local de trabalho muito necessitado de profissionais com a minha formação, a forma para obter a autorização de trabalho seria facilitada. E foi o que aconteceu, foi muito fácil, num mês estava a decidir sair de Portugal e no outro mês já cá estava. Limpinho, limpinho.
Até aí tudo bem, já havia portugueses cá, vim com outra colega portuguesa, por isso, no primeiro ano em França digamos que não senti muito os efeitos de estar longe, era tudo novo, havia tanto para aprender, tinha muitas saudades, mas quando ia a Portugal sentia que estava tudo na mesma, os amigos estavam iguais, a família estava igual, nada tinha mudado.
Ao fim de um ano fiquei a morar sozinha. Fiz várias amigas francesas do trabalho e 2 delas aproximaram-se mais, dou graças a Deus elas serem as melhores pessoas que o destino podia ter metido no meu caminho nesta fase da minha vida. Elas são espectaculares e são de uma paciência infinita, é engraçado como temos as 3 os mesmos problemas, e frequentemente damos por nós a desabafar sobre coisas que todas sentimos. Muita empatia, gosto mesmo delas. Foi com elas que vim viajar by the way...