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Diário de uma desarrumada

Desarrumada na casa e na alma, sou eu, prazer. Um pensamento por dia. Ou quando me apetecer.

Diário de uma desarrumada

Desarrumada na casa e na alma, sou eu, prazer. Um pensamento por dia. Ou quando me apetecer.

17
Out17

Afinal...

... os meus pais estão bem. As comunicações foram cortadas em todo o concelho e nos concelhos vizinhos. De vez em quando não havia luz, o fumo entra quando se abre a janela, há pessoas a usar máscara e crianças a desenvolver problemas respiratórios. O cenário é negro, há cinzas por todo o lado, os telhados estão pretos e os muros estão cheios de fuligem. Foi assim que a minha mãe me descreveu o que estão a viver.

Algumas casas do concelho arderam, uns quantos negócios nos concelhos vizinhos foram ao ar. E assim se perde tudo pelo qual se lutou uma vida, pessoas resilientes que apostaram no interior do país encontram-se hoje sem nada. O meu pai não teve um único cliente ontem no negócio dele, e hoje ia pelo mesmo caminho. O meu avô materno perdeu um pinhal inteiro e o meu avô paterno perdeu a vinha. E assim se perdem negócios e sonhos. Os incêndios matam, os incêndios levam com eles a esperança em dias melhores, os incêndios estão a dar cabo das pequenas vilas e aldeias do país. Fala-se em desertificação, numa Serra da Estrela cada vez mais vazia, mas ninguém ajuda quem lá fica. Depois as pessoas vão embora para as cidades ou estrangeiro. Já ninguém consegue ficar na aldeia que os viu crescer. Por outro lado, os da cidade gritam aos sete ventos que a "sua" cidade não dá para todos, e têm razão, não vamos conseguir caber todos nas cidades, um dia a bolha rebenta. O meu pai tem quase 50 anos e já fala em voltar a sair do país ou mudar-se para uma cidade. Ninguém aguenta viver no campo com condições assim. Há zonas do país abandonadas, sem escolas com a centralização em cidades, sem hospitais com a centralização em cidades, com postos de bombeiros desprovidos de meios, obrigados a esperar que os "maiores" da cidade cheguem.

Meus caros, o que vou dizer é muito triste, eu não sei onde quero morar no futuro, se em Portugal ou no estrangeiro, visto que mudo de ideias como quem muda de cuecas, mas sei muito bem onde não quero voltar a morar nunca, numa aldeia qualquer perdida no meio de Portugal. Com muita pena minha, se algum dia tiver filhos, eles nunca vão respirar um ar tão puro como o que eu respirei durante a minha infância na Serra.

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