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Diário de uma desarrumada

Desarrumada na casa e na alma, sou eu, prazer. Um pensamento por dia. Ou quando me apetecer.

Diário de uma desarrumada

Desarrumada na casa e na alma, sou eu, prazer. Um pensamento por dia. Ou quando me apetecer.

28
Jun17

Diário de bordo 28.06.2017

Querido diário,

 

Hoje foi um dia daqueles. Acordei e fui para o trabalho, cheia de sono como de costume, porque por mais que tente não consigo deitar-me cedo. Mas, a primeira hora é a que custa mais, depois entro em piloto automático e a coisa até corre bem na medida do possível. Há dias na vida que são espectaculares, fazemos montes de coisas e parece que a vida é maravilhosa. Temos aquela impressão de que tudo está encarrilado e as coisas estão finalmente a entrar nos eixos. Depois há os outros 99% dos dias, os dias como o de hoje. Os dias banais, normais, em que somos só mais um ser humano, a tentar fazer o melhor que consegue, com os meios disponíveis no momento.

 

Hoje tinha tudo para ser um desses dias, normal. Mas não foi. Foi um dos outros tipos de dias, dos quais não falei, porque não sei como os encaixar nas estatísticas. Talvez corresponda a 0,01% dos meus dias? Não sei, mas gostava de acreditar que, apesar de tudo, estes dias fazem parte da minoria.

 

Lá no trabalho recebemos um doente novo há cerca de 3 semanas. Sim, acho que nunca te disse, meu querido diário, mas trabalho na área da saúde. Sou um desses milhares de licenciados portugueses que emigrou para trabalhar num hospital qualquer da Europa. Quem diz hospital, diz lar, centro de reabilitação, unidade de cuidados continuados, as escolhas são infinitas. Eu ando ocupada há quase 3 anos, num sítio desses, perdido algures numa terrinha, onde o comboio já não passa, excepto aquele das 7h da manhã, que só traz mercadorias e que faz muito barulho. 

 

Sei que já vivo aqui há muito tempo, porque quando vou à feira ao Sábado de manhã já conheço 70% das caras que lá estão, tanto as dos feirantes como as dos habitantes que andam a fazer compras. Lá estou eu outra vez com percentagens, mas ultimamente sinto esta necessidade parva de converter certos aspectos da minha vida em números.

 

Ainda sobre aquele doente... Estou a substituir uma colega, ela já me tinha avisado de que este era um caso particularmente difícil. Já tínhamos recebido utentes novinhos, eu sei que faz parte e tudo o mais, mas hoje custou mais do que nos outros dias. Hoje entrei no quarto de uma menina de 18 anos e 2 meses que está em coma.  Eu sei que com 18 anos já não é "menina" nenhuma, ela se me ouvisse falar assim, de certeza que ia refilar, do alto da sua adultez recém adquirida! Mas, é inevitável, quando olho para ela, para a sua pele lisinha, cabelos rapados devido à operação pós trauma craniano, parece-me tão mas tão pequena. Apetece pegar nela e dar mimos. Dizer-lhe que vai correr tudo bem, que vai acordar, e que tudo vai ser como era antes.

 

Mas não posso. Um profissional de saúde não pode dizer esta coisas! Nem admitir que as pensa, sequer! Diário, assim em jeito de confidência, acho que este trabalho anda a provocar as minhas crises de ansiedade. Pensei que fosse ficar melhor com o tempo, mas não fiquei. Parece que o coração é cada vez maior, que cada vez entram mais razões de preocupação e angústia. Eu sei que tenho que cuidar de mim. Mas não sou de ferro, caramba!

 

Ainda sobre a menina grande, pequena mulher, ela fez anos no Domingo. E os amigos deram-lhe uma Barbie bailarina, daquelas de colecção. Algumas pessoas da equipa disseram que é uma prenda infantil, que não se oferece nada do género a quem já é adulto, e que se ela a pediu antes do acidente, isso pode dizer muito da personalidade dela. Eu não percebia porque diziam isto. Hoje vi a tal Barbie, linda no seu suporte, com um tutu cor-de-rosa, no alto dos seus pés em ponta (é assim que se diz no ballet, certo?). Está colocada na mesa em frente à cama e está sorridente. De certeza que a menina grande, pequena mulher, adorou a prenda.

 

Quem diz que a Barbie é uma prenda de crianças não percebe nada disto do mundo dos sonhos. Eu recebi nos meus anos o Funko Pop do John Snow e fiquei mais do que contente. Quase que deitava estrelas pelos olhos, e nas fotos até parece isso, mas afinal eram as faiscas que vinham do bolo que o garçon trouxe à mesa, naquele restaurante indiano em Londres onde elas me ofereceram o meu tipo de comida preferido da altura. 

 

Sem assunto de maior me despeço de ti hoje. Não sei se volto a escrever aqui, mas gostei de falar contigo. Não devia ter deixado de escrever um diário aos 12 anos, idade em que decidi meter o meu, que tinha flores cor-de-rosa e golfinhos azuis, na gaveta, porque pensava que era coisa de crianças e eu já era muito crescida. Curiosamente foi a mesma idade em que vesti as minhas Barbies todas com as roupas certas, deixei-as expostas no sofá do sótão lá de casa dos meus pais e nunca mais brinquei com elas.

 

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